Celulares e estereótipos na Roosevelt

Hipóteses para o Amor e a Verdade é um espetáculo realizado pelos Satyros, texto de Ivam Cabral e Rodolfo Garcia Vázquez, com direção de Vázquez. Um dos pensamentos que embasam o espetáculo aparece, logo no início, na fala de um dos personagens: "Eu posso criar minha própria realidade." Parece que, com o intuito de questionar ou reforçar a ideia sobre o real e o virtual que cerca o homem, a direção usou alguns recursos tecnológicos, por assim dizer, como o telefone celular (os atores ligam para pessoas da plateia antes, no saguão, e durante a peça), webcam e uma tela de projeção (o público vê os atores em cena e também na projeção). Essas ferramentas não seriam desnecessárias, na medida em que dizem menos do choque entre as realidades, do confronto entre o caos interno dos personagens e o caos externo do mundo, do que a própria dramaturgia propõe?

Crítica: César Augusto, O Estado de S.Paulo

30 de julho de 2010 | 00h00

O texto é fragmentado de modo que as histórias se entrecruzam. Assim, muitos personagens não se encontram, outros sim, e esse recurso apoia o sentido caótico entre o mundo interno dos personagens e o externo. Esses embates, em algumas cenas, partem de clichês, como na cena da enfermeira que cuida de uma senhora, aparentemente com Mal de Alzheimer, de modo sempre solícito, mas que, ao final, acaba por matar a senhora. É possível perceber, desde o começo, que isso vai acontecer. Isso parece ocorrer muito em função da opção por uma interpretação desnecessariamente melodramática, o que acaba por deixar a enfermeira óbvia e unilateral em vez de compô-la em dúvida, entre o sim e o não de sua verdade enclausurada. Em contrapartida, em outra cena, o embate parte de um personagem que consegue fugir do maniqueísmo, da antítese básica entre sim e não. Felício, um gerente de firma, não sabe se gosta de homem ou de mulher, ou melhor, o que sabe é que sente prazer e felicidade na relação sexual com ambos os sexos. Porém, seu grande salto para o abismo se dá quando ele diz que substituiu a mãe no "posto de observação", na igreja da cidade, para ver quem está com os olhos cinzas, opacos e vazios, indicando, assim, qual dos dois entre os noivos não ama, saindo do campo do emblema e indo para o campo da descoberta de si mesmo. Tiago Leal passa a precariedade necessária a esse personagem que se investiga com o desejo de se saber, deixando mais humano o estereótipo. Outros personagens flutuam entre essas duas pontas, uns mais próximos ao clichê, ao valor unilateral, outros com alguns momentos dialéticos.

Signos. No que diz respeito à interpretação, incluir não atores, ou atores com pouca experiência, requer astúcia para dirigir o olhar do espectador, como Bresson faz, que, dependendo do caráter do que se quer dizer, pode funcionar. No entanto, seja ator ou não ator, o palco parece ser implacável. Se tudo no teatro é signo, mesmo um palco vazio, será que aos não atores não pode faltar, eventualmente, um arcabouço técnico e cultural que dê munção a eles para o enfrentamento e a expressão das matizes do ser humano?

Diante disso, se os personagens são homossexuais, homofóbicos, prostitutas, nerds, gigolôs, apresentadora de TV, gerente de loja, enfermeira; se eles estão no submundo, à margem, ou inseridos no que se considera modelar, parece não importar exatamente. Os Satyros parecem tentar romper e transpor a questão dos emblemas e rótulos, ainda que façam uso deles, os quais muitas vezes estigmatizam qualquer ser humano, a fim de investigar princípios que (des)norteiam a todos.

Se, como diz Bachelard, "o homem é o ser entreaberto" e se, segundo Rilke, "as obras de arte nascem sempre de quem afrontou o perigo, foi até o extremo de uma experiência, até o ponto que nenhum ser humano pode ultrapassar", talvez os Satyros tenham conseguido deixar a porta para o perigo entreaberta, vislumbrando as "hipóteses" de sobrevivência aos desencontros de quem tenta buscar o amor e a verdade.

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