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Luis Fernando Verissimo
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Celulares

Cinco numa mesa de bar, comparando seus celulares. Um diz:

LUIS FERNANDO VERÍSSIMO, O Estado de S. Paulo

28 de julho de 2013 | 07h29

– O meu não só mostra quem está chamando como avisa se for um chato.

– O meu – diz outro – acessa a internet, faz café, dá palpites para jogar na Sena e o tempo que faz no Himalaia.

O terceiro:

– O meu é gravador, relógio, câmera fotográfica e granada de mão, e ainda faz logaritmos.

O quarto:

– O meu codifica, decodifica e toca o hino nacional.

Os outros três se intercalam:

– O meu imita passarinho e dá o diretor, os roteiristas e o elenco completo de 17 mil filmes.

– O meu dá a escalação de todas as seleções do mundo desde que inventaram o futebol e o resumo de todas as óperas.

– O meu é despertador, desfibrilador e termômetro, além de mostrar imagens de Marte.

– E o meu? E o meu? – diz o quinto, que até então permanecera em silêncio.

– O seu o que faz?

– O meu – diz o quinto – me ama.

Na Transilvânia. (Da série Poesia numa Hora Dessas?!)

Ele flana pelos corredores do castelo

como um par de olheiras sobre 

patins

com a tinta escorrendo dos cabelos

a boca roxa, as mãos nos rins.

Às vezes para porque ouviu seu 

nome:

“Drakuuul”, longe, “Drakuuul”

Mas é só o som do vento gelado

ou de um lobo desgarrado. 

Pede “Virgens!” e dão risada 

pede “Sangue!” e lhe trazem laranjada.

Bolachas ou coisas vivas?

“Monsieur le Compte, suas gengivas!”

Ele desliza pelos corredores 

sonhando com pescoços latejantes

pensando em velhas conquistas

e em abrir o térreo para turistas.

“Drakuuul!”, longe, “Drakuuul!”

Mas é sempre só um lobo anônimo.

Ou, possivelmente, um lobo irônico. 

Manifestações. O esquerdista e o reacionário não se viam há tempo e no outro dia se encontraram.

– Ó, rapaz. Você por aqui.

– Pois é, estou indo para uma manifestação.

– Não diga. Eu também!

– Coincidência, duas manifestações ao mesmo tempo. Se conheço você bem, a sua é de esquerdistas. Posso até adivinhar o que vão reivindicar.

– E se eu conheço você, sei exatamente o que vão pedir.

– Onde é a sua manifestação?

– Vamos nos reunir na frente da prefeitura e depois...

– Epa! Nós também. Estamos indo para a mesma manifestação!

– Impossível. Um de nós dois está indo para a manifestação errada.

– Bom, lá a gente vê. Aceita uma carona?

– Sei não...

– Sem compromisso.

– Então vamos.

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