Celular, você mudou tudo...

A quantidade de aplicativos de namoro existentes no mercado é para todos os gostos, tipos, raças, idades e religiões

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

28 Julho 2018 | 02h00

Me fascinam os aplicativos de paquera, apesar de não ter um. Os de todos amigos ou amigas que são usuários, xereto. Me fascina a dimensão da transformação dos sentimentos e hábitos sociais que aplicativos de relacionamento implicam: o hedonismo no topo das necessidades. 

O episódio que mais repercutiu da série Black Mirror, a que justamente debate as transformações do mundo tecnológico, foi Hang the DJ, em que um aplicativo de namoro permitia que os casais que deram match fossem informados quanto tempo durariam seus relacionamentos, para em seguida começarem outros sugeridos.

A quantidade de aplicativos de namoro existentes no mercado é para todos os gostos, tipos, raças, idades e religiões. O que intriga é o fenômeno do match, que em outros tempos se chamava “amor à primeira vista”, e com a crise do comprometimento deu em “química”, “liga”, “ficar”, “crush”. 

Se você não sabe, nesses aplicativos o usuário passa o dedo sobre fotos de dezenas, centenas, de possíveis candidatos(as) ao amor. A maioria escolhe com pressa, apenas ao dar um look superficial na foto. Poucos abrem o arquivo, para saber mais detalhes, ver mais fotos, uma descrição ou até um currículo.

A “fórmula do amor”, que Leoni e Leo Jaime ficaram décadas procurando, resume-se num algoritmo de opções, que resulta num gesto digital de deslizar o dedo para direita ou esquerda sobre uma tela touch. 

O match, que deve aumentar a serotonina dos usuários, dar aquele arrepio na espinha, que no milênio passado se chamava paixão, é uma ilusão. A pessoa acha que o match é com ela, por causa dela e seus atributos. Nada disso.

O usuário do lado de cá deslizou centenas de fotos, como a do lado de lá. O match na verdade é um match entre centenas, não o match para a vida toda. Aquele match é casual, é randômico. Pode até rolar, mas o usuário tem outros matches guardados no bolso, e ficará sempre a dúvida se o encaixe sugerido é melhor do que o outro, que aguarda.

Não, cara, o match não se deu porque você é incrível, o mais incrível de todos, é especial, único, demais, sensacional, é “tudo”. Eu estava com pressa e deslizei o dedo. Não quer? Relaxa. Tem milhões de usuários para pesquisar.

Ainda é cedo para um prognóstico, mas será bem estranho contar aos filhos que papai e mamãe se conheceram numa tela touch. Se é que papai e mamãe ficarão juntos o suficiente, pois na mesma tela outros papais e mamães em potencial aguardam um match.

*

Numa reunião de diretores e produtores de TV, que mais parecia a antessala de uma UTI, um amigo levantou o celular e vaticinou: “O mundo todo agora passa por aqui! Transporte coletivo, comida, banco, correio, compras, cinema e televisão!” 

Recentemente, entrevistei 13 convidados para um programa de TV. Minha produtora não usava computador. Toda a pesquisa, pauta e agenda ela me passou pelo celular, no office ou no caminho por mensagens e e-mails com anexos, fotos, arquivos em Word e PDF. O celular é seu único instrumento de trabalho. 

Na virada do milênio, Marluce Dias, diretora geral da Rede Globo de 1998 a 2002, sucedendo aquele que parecia insubstituível, José Bonifácio ‘Boni’ de Oliveira Sobrinho, apontou o celular como o maior concorrente da TV Globo, no congresso anual de diretores realizado em Angra.

Marluce veio da área de recursos humanos. Psicóloga formada, fez a previsão anos antes do lançamento do iPod, da popularização da tela touch, do lançamento do iPhone (2007), Android (2012), tablets.

Era ainda a época do Nokia, em que cabiam no máximo cem contatos, com o que mandávamos torpedos (mensagens). Surgiam as primeiras câmeras digitais acopladas. Engatinhava a tela touchscreen da Motorola (modelo A6188). Só em 2003, a Samsung lançou o S300, primeiro modelo com notificações em que se conseguiam ler mensagens por um display externo. Só em 2005, a Sony lançou um aparelho que conseguia ler arquivos em MP3. 

Aplicativos foram lançados em 2007. Neles, assistimos a filmes, novelas, séries, jogos de futebol. E tem gente que, sim, assiste a novelas, essa paixão brasileira que não morre, dentro de um metrô, trem, busão e avião, pelo celular.

A TV aberta entrou na UTI. A TV paga, no Pronto Atendimento. As redes se renovam. A ordem agora é se prepararem para fornecer conteúdo por seus próprios aplicativos ou parcerias. Um executivo da maior operadora de streaming de vídeo do Brasil me disse que já é maioria os usuários que o assistem pelo celular.

Assistir ao cinema espetacular de David Lean, de grandes planos, para grandes telas (Lawrence da Arábia, Dr. Jivago), ou ao preciosismo estético com enquadramentos e lentes que conduzem a trama de Stanley Kubrick, numa tela de cinco polegadas? Aprendemos a diminuir nosso campo de visão e focarmos naquela pequena tela.

Uma pesquisa do Boston Consulting Group afirma que um terço dos americanos, entre o celular e o sexo durante um ano, preferem o primeiro; 30% preferem ficar no celular que encontrar amigos; 45%, entre férias e celular, preferem o celular; 55% preferem deixar de comer fora para ficar num celular. 

O mundo todo passa por um celular. Inclusive o amor.

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