Celso Frateschi ressalta a coerência da nova fase do Ágora

Em 'Teatro Nosso de Cada Dia', diretor usa seu talento para assumir a subjetividade poética, o senso crítico e a fantasia do teatro

Jefferson Del Rios - Especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

17 de outubro de 2013 | 20h03

As pessoas na selva das cidades são o ponto de partida de Teatro Nosso de Cada Dia, novo espetáculo do Ágora, hoje um renovado polo de formulação de projetos e de discussão das artes cênicas. O elenco conta com três atores sólidos em papéis curtos ou incidentais (Celso Frateschi, Francisco Wagner, Fabio Takeo) e atuações comoventes das atrizes Belize Pinheiro, Daniela Theller, Fernanda Hartmann e Teca Pinkovai.

Eles repõem a palavra como o instrumento maior de comunicação. Uma necessária teimosia em oferecer ideias à euforia experimentalista onde tudo vale em nome das novas teatralidades, conceito que abriga entre outros efeitos os ruídos urbanos por vezes excessivos (a rua é o teatro e vice-versa), e uma avalanche multimídia. Claro que é tema controverso. Facilita contestação e ironias por parte do vanguardismo frenético. Tudo bem, mas o possível espectador merece saber que um grupo artístico se ocupa do homem anônimo preso em engrenagens (sociopolíticas e econômicas) que o anulam. Um teatro que também pesquisa o novo sem negar o que disseram Shakespeare, Chekhov e Brecht. Tarefa arriscada, sobretudo neste espetáculo que junta minipeças de vários tons dramáticos ou cômicos com dramaturgia final e direção de Celso Frateschi.

Há oscilações de densidade ou pertinência. Acertos paralelos à falta de nitidez, mas o clima é de calor humano ao olhar pessoas desgarradas, confusas ou pobres, em choque com a impessoalidade do asfalto. Mulheres da limpeza, esta humanidade invisível que nos serve a todos; patéticas brigas de casal; a freguesa e a atendente da funerária de luxo em lance de absurdo cômico inspirado por Nelson Rodrigues. O humor negro do locutor que narra o trânsito da cidade; ecos da periferia onde tiros e gritos lá fora pedem que cada um cuide de si e faça de conta que não ouviu.

Frateschi, embora tenha posição politica conhecida, soube enquanto artista se resguardar do discurso pronto. Usa seu talento para assumir a subjetividade poética, o senso crítico e a fantasia do teatro. Com trajes e objetos de catador de rua, um tanto mendigo dostoievskiano e algo beckettiano, Celso pontua a ação com falas eternas: “A vida é uma sombra errante (...). É um conto de fadas, que nada significa”. (Shakespeare, em Macbeth) seguida de Chekhov (“E nós viveremos, nós viveremos tio Vânia, viveremos a longa, longa sequência de dias e noites... descansaremos”).

Esta aposta humanista ressalta a coerência do Ágora em sua nova fase (após reforma do local e ampliação das atividades com peças em horários alternativos, debates e cursos). Além de Teatro Nosso de Cada Dia está em cartaz o primeiro espetáculo adulto do grupo Doutores da Alegria que atua em hospitais. Em discussão, o momento “quando a doença revela quem somos: viajantes em terras imagináveis”.

Ainda há o projeto Sessão da Tarde com trabalhos de jovens artistas em processo de formação. Finalmente, nos próximos dias, estreia Coelho Branco, peça do iraniano Nassim Soleimanpour. Proibido de sair do seu país, criou uma obra que é lida por uma atriz ou ator diferente a cada representação e que sugere a participação do público.

Teatro Nosso de Cada Dia não é mesmo perfeito (poderia, por exemplo, ser mais utilizada pela iluminação a cenografia de “vitrines humanas” criadas por Sylvia Moreira). No total, a montagem, porém, capta os desvãos da noite suja, o desamparo e a breve poesia “dos delírios nervosos dos anúncios luminosos que são a vida a mentir” como cantou Lupicínio Rodrigues.

O TEATRO NOSSO DE CADA DIA

Teatro Ágora. ua Rui Barbosa, 672, tel. 3284-0290. 5ª a sáb., 21 h; dom., 19 h. R$ 40. Até 10/11.

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