Cello carreira de 50 anos

O violoncelista Antonio Lauro Del Claro comemora meio século como instrumentista na Orquestra Sinfônica da USP

JOÃO MARCOS COELHO, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2012 | 03h11

O violoncelista paulista Antonio Lauro Del Claro completa meio século de carreira artística e 62 anos de vida no dia 13 de outubro. Os primeiros concertos comemorativos estão acontecendo neste fim de semana. Anteontem, ao meio-dia e meia, a OSUSP - Orquestra Sinfônica da USP, regida por Ligia Amadio, acompanhou Del Claro no Concerto nº 1 Para Violoncelo e Orquestra, de Nino Rota, e também interpretou a suíte Daphnis et Chloe, de Ravel. O mesmo programa será repetido hoje, às 17 horas, na Sala São Paulo, com um acréscimo delicioso: o Prelúdio ao Entardecer de um Fauno, de Debussy.

A OSUSP só tem 42 contratados, mas no palco estavam quase 100 músicos, todos cachezistas, para fazer Ravel. A universidade insiste em gastar muito com cachês em vez de institucionalizar a orquestra. Por isso mesmo, e apesar da competência de Ligia Amadio na regência, sobretudo em Ravel, a orquestra jamais conseguirá construir sonoridade própria.

Del Claro, entretanto, está em clima de festa. Brincalhão, adora repetir que músico vive a dupla sina do já-ainda: "Aos 12, todo mundo diz 'nossa, como ele já toca bem'; e aos 80 'nossa, ele ainda toca'. Nesse meio-tempo, acaba o espanto, mas é onde começa um árduo trabalho de estudo e aperfeiçoamento diário, a única maneira que conheço de fazer música direito".

Ele nasceu e cresceu em família musical. Ainda menino de calças curtas, participava só dos ensaios comandados pelos maestros Edoardo de Guarnieri, Souza Lima e Armando Belardi, sentadinho na última estante dos violoncelos na Orquestra Sinfônica do Teatro Municipal (seu pai, músico, abriu-lhe espaço). Foi assim que aprendeu boa parte do repertório de seu instrumento. Já músico profissional, foi primeiro violoncelo da Municipal entre 1967 e 1973. Um de seus períodos mais felizes foram os sete anos, entre 1976 e 1983, como primeiro violoncelo da Orquestra da USP, então comandada por Camargo Guarnieri. "Meu sonho é gravar o Choro do Guarnieri, tenho uma partitura que revisamos juntos, e no mesmo CD também o concerto para violoncelo de Claudio Santoro", confessa.

Foi ótima a execução do belo e melodioso concerto de Rota, um compositor que tinha o talento de criar música popular para Fellini e também escrever música de concerto de qualidade. Del Claro, empunhando orgulhoso seu instrumento do lutiê Paul Bailly de 1881, mostra uma mão direita poderosa no manejo do arco e pleno domínio da partitura. Mais do que isso, não se limita a ler notas, faz música.

Seu maior desafio profissional e de vida aconteceu no final de 1983: um grave acidente na Rodovia Bandeirantes, quando estava assumindo como professor na Unicamp (onde permaneceu até 1998). Seu ombro direito foi esmigalhado. "Fiquei um ano sem tocar; e depois tive de fazer uma segunda cirurgia só para retirar os pinos e parafusos", diz. "Foi meu maior desafio: não sabia se conseguiria voltar a tocar".

Os jovens de hoje, alerta, têm pressa demais para aprender a dominar o instrumento. "O caminho é longo, não há atalhos, leva a vida inteira e não chegamos à perfeição." A gravação das obras concertantes de Guarnieri e Santoro permanece um sonho, mas é bastante concreto o projeto de gravação das quatro sonatas e peças avulsas para cello e piano de Santoro com Alessandro Santoro, para 2013.

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