Célia, 40 anos de carreira em plena renovação

Célia, 40 anos de carreira em plena renovação

Cantora mantém o ímpeto rejuvenescedor em CD que junta Baden, Benito, Zélia, Tim Maia e Jane & Herondy

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

08 de setembro de 2010 | 00h00

Arriscar sempre fez parte do histórico de Célia, um jeito que encontrou para se ajudar a não envelhecer. Ela começou num tempo em que as cantoras cantavam. Hoje há uma meia dúzia que faz isso bem. "Muitas são maravilhosas, mas não cantam e não pensam. Porque cantar não é só cantar", lembra a cantora, que celebra 40 anos de carreira com o CD O Lado Oculto das Canções (Som Livre).

Parece óbvio, mas a maioria das cantoras surgidas de uns tempos para cá não apresenta sequer a combinação básica de voz, afinação, personalidade e cuidados com o repertório e seu significado, além de detalhes como a prosódia, por exemplo. O novo trabalho de Célia é uma aula de boa música em todos esses sentidos. Hoje ela faz show só para convidados no Passatempo (Rua Jerônimo da Veiga, 446, Itaim Bibi), onde volta no dia 15 para outra apresentação aberta ao público.

São 40 anos de estrada, o que pode parecer muito tempo para os mais jovens, mas a jovialidade está presente nas ideias e na interpretação, entre outros itens que fazem de Célia a grande cantora que sempre foi, correndo no universo paralelo do mainstream da MPB. Em Vinho Antigo (Claudio Rabelo/Dalto), que abre o CD, por exemplo, ela parece uma menina. "A personagem é uma garota, então eu tenho de fazer uma voz mais jovem", diz. "Elis Regina dizia: para cantar basta abrir a boca, o duro é entender o que você vai dizer."

A princípio Célia tinha planejado fazer um songbook de João Bosco, mas acabou aceitando a sugestão de "se homenagear" feita por um de seus mais íntimos colaboradores, Fernando Cardoso, que assina a concepção e a direção artística do álbum, entre outras funções. O produtor Thiago Marques Luiz e o DJ Zé Pedro também têm sua cota de responsabilidade no ótimo resultado. Tanto no CD como no show, Célia canta acompanhada por Ogair Jr. (piano), Marcos Paiva (contrabaixo acústico) e Nelton Essi (percussão). Toninho Ferragutti (acordeon) é convidado.

Cordas e ousadias. Contemplada com patrocínio da Klabin, Célia pode se dar o luxo de contar com naipes de cordas e o cantor Ney Matogrosso, que faz duo com ela em Não Se Vá, hit da dupla Jane & Herondy. Parte do repertório é do universo cafona dos anos 1970/80 - incluindo composições de Benito di Paula, Peninha, Guilherme Arantes e a dupla Evaldo Gouveia e Jair Amorim -, mas ela também ganhou inédita de Zélia Ducan e Hamilton de Holanda (Desejo de Mulher) e lapidou pérolas menos difundidas de Zeca Baleiro (Cigarro), Adriana Calcanhotto (Vidas Inteiras), Angela Ro Ro (Meu Benzinho) e Ana Carolina/Antônio Villeroy (Aqui).

Dois clássicos ressurgem completamente diferentes e inusitados. O funk Não Vou Ficar (Tim Maia) ganhou arranho jazzy, inspirado em Melody Gardot. Apelo (Baden Powell/Vinicius de Moraes) não recai sobre afro-samba ou bossa nova, virou guarânia. Mas nada que se assemelhe ao estilo paraguaio. "Porque eu sou chique, né?", brinca a cantora.

Cantiga de Quem Está Só (Evaldo Gouveia e Jair Amorim), originalmente um bolero, gravado por Altemar Dutra e Maysa, ganhou ares de zamba argentina. No final de Sonhos (Peninha) ela deixa uma interrogação, para discordas das interpretações do autor e de Caetano Veloso. Eis o que ela quer dizer com "o lado oculto das canções", título sugerido por Zé Pedro e extraído de um verso de Eternamente (Tunai/Sérgio Natureza), canção lançada por Gal Costa, que voltou na trilha da novela Escrito nas Estrelas.

Não se trata de apenas pegar um repertório brega e torná-lo sofisticado, até porque Célia não se limita a esse terreno, mas de não se exercitar a prática da ousadia, valorizando "muita coisa bonita" que há por trás dessas canções. Com exceção de Benito di Paula e Vinicius de Moraes, todos os outros autores são inéditos na voz de Célia.

Tudo é muito sutil, "mais para caixinha de fósforos do que para bumbo". Acima de tudo, a cantora quis agradar seu público fiel. "Perguntaram para mim se eu não achava que o disco estava muito elitista. Respondi que meu público é 95% de gays masculinos, o que para mim é uma felicidade danada. Essas pessoas não se importam se o disco está mais pra cima, mais pra baixo, pro meio ou pro lado. Fiz um CD para eles que me ouvem, não vou convencer o público de Zezé Di Camargo e Luciano a gostar de mim", brinca.

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