THIAGO QUEIROZ/ESTADÃO
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Celeste Antunes estreia na literatura com ‘Para Quando Formos Melhores’

Jovem de 22 anos conta que romance nasceu do desejo de entender o que acontecia ao seu redor

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

05 de novembro de 2013 | 21h25

Celeste Antunes já escreveu e dirigiu uma peça de teatro – Fermento, sobre crescimento. Dirigiu o curta-metragem Fogo Baixo, que tem como pano de fundo a cidade de Cubatão. Na infância, chegou a gravar uma música com a mãe. Também fez um verso para outra música, que ficaria famosa na voz do pai. Nesta quarta, aos 22 anos, faz sua estreia na literatura com o breve romance Para Quando Formos Melhores (Editora 34).

Não que ela tenha optado, agora, pela escrita. Celeste, que trocou a faculdade de letras da USP pela de cinema da Faap, onde cursa o quinto semestre, está experimentando. “Estou descobrindo se quero comunicar alguma coisa, se isso é possível e se sou capaz, e de que forma posso fazer isso”, conta em sua primeira entrevista sobre o romance e sobre seu possível novo ofício.

O romance nasceu do desejo de Celeste de entender o que acontecia ao seu redor. Ela estava com 19 anos quando começou a escrevê-lo. “Naquela época, eu tinha saído de casa, estava morando com amigos e convivendo diariamente com meu irmão e meu primo, que são mais novos. Sempre observei muito as coisas, achando que estava de fora delas. Fui a muitas festas, vi pessoas tentando criar relações firmes e se afundando em buracos solitários. Quis entender o que estava acontecendo com meu círculo de amigos.”

Investigou isso com a ajuda de Miguel, Lucas, Teo, Fran e Sara, os personagens que criou e por quem se apaixonou. Eles têm 16 anos, são amigos e alunos da mesma escola. Nas cem páginas do livro transitam do quarto para o bar, para uma festa, depois para outra festa e para a escola. A intimidade sendo confundida com a sexualidade, a amizade com o amor. Eles matam o tempo jogando conversa fora em embates verbais espirituosos, escondendo sentimentos e experimentando drogas. No fundo, estão todos disponíveis uns para os outros e tentando, como diz a autora, construir uma relação afetiva.

"Existe uma ânsia autêntica de tentar se relacionar nos jovens, mesmo com toda a confusão mental, sexual e social”, diz Celeste, que não quis, porém, fazer um retrato de sua geração no livro. “Talvez o retrato seja de um núcleo de certas escolas construtivistas de São Paulo, onde essas questões são mais abertas – e, ao mesmo tempo, fechadas, porque os jovens continuam sendo conservadores”, completa a garota que estudou na Escola da Vila e no Equipe.

Mas nem sempre, na vida ou na ficção, esse encontro acontece. E, para cada um dos personagens, o efeito será diverso.

Miguel, por exemplo, é, dos cinco amigos, o que acabou ganhando mais espaço na obra, com pais – com quem pouco se relaciona e que só aparecem no final da obra – e uma adorável irmã mais nova. Ele é radical na reação às suas angústias. Faz greve de fome, para de ir à escola, se afasta dos amigos e joga tudo para o ar em pleno ano letivo. Miguel, aliás, era o herói e único do grupo com bom senso na primeira versão do livro. Também naquela versão, ele não viajaria no final e não teria um futuro em aberto: tudo seria resolvido na terapia, que ele não fez em Para Quando Formos Melhores.

É, ainda, um livro sobre como conviver com os outros sem se destruir ou sem destruir o outro, diz a autora, que quis investigar mais um tema na obra: o humor. “Percebi como ele pode, assim como o afeto, levar a uma violência extrema. E isso é tão claro nas relações dentro desse sistema capitalista metropolitano.”

Celeste gostou da experiência de fazer um livro. “Escrever é estar aberto, é ser uma esponja ao mesmo tempo em que olha para o vazio lá de dentro”, comenta. Mas não sabe se outros virão. Por ora, dedica-se a ler teoria e, quando sobra tempo, alguma ficção. É fã de J. D. Salinger, de Jonathan Franzen e da poeta Wislawa Szymborska.

A autora teve uma mãozinha de muita gente durante a empreitada. Os amigos, o irmão, os primos leram o livro que passou, ainda, pelas mãos de seu pai, o músico Arnaldo Antunes, de Beatriz Bracher e de Fabrício Corsaletti, entre outros.

Ela conta que cresceu muito enquanto escrevia sobre esses jovens. “O que acontece quando Miguel entra no avião? Ele fica aliviado porque não está mais sendo moldado e moldando os amigos? Ele tem uma crise de pânico? É problema dele. Na minha experiência, você vai percebendo o que realmente tem interesse de fazer. Desiste do resto. Não passa a vida tentando agradar os outros. Se acostuma a ter remorso, porque remorso é algo que também te forma. Enfim, tenta descobrir relações afetivas que se sustentem e que não tenham que ficar se provando o tempo todo, que é um pouco o que eles fazem no livro”, conclui.

PARA QUANDO FORMOS MELHORES

Autora: Celeste Antunes

Editora: 34 (104 págs., R$ 29)

Lançamento: Quarta, 19h30, no Bar Sabiá (Rua Purpurina, 370, tel. 3032-1617)

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