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Celebridade

Para se redimir de conhecer tão pouco o Brasil, disse que gostava muito do Julio Iglesias

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S. Paulo

27 Maio 2018 | 02h00

Num dia de julho de 1994, eu estava num avião entre Dallas e San José, na Califórnia. A senhora sentada ao meu lado me contou que tinha uma filha que morava no Estado do Kansas. Perguntou se aquilo lá embaixo era o Kansas. Não era. Mesmo se ela pudesse distinguir sua filha da paisagem, não conseguiria vê-la. Depois, a senhora me perguntou se eu sabia por que as áreas cultivadas que víamos do alto eram redondas. Teria alguma coisa a ver com seres extraterrestres? Respondi que se devia ao método de irrigação. Entusiasmado com meu próprio desempenho nas áreas de geografia e técnica agrícola, esperei pela sua próxima pergunta e por mais uma oportunidade para impressioná-la. Infelizmente, não pude responder à pergunta seguinte. Ela tinha me visto entrar no avião com um grupo e perguntou quem éramos nós e o que estávamos fazendo naquele avião. Mesmo que conseguisse explicar que éramos jornalistas brasileiros a caminho da Califórnia para cobrir a Copa do Mundo de futebol, eu não saberia explicar como um país tão cheio de problemas como o nosso podia mandar tanta gente cobrir um evento que ela nem sabia que estava acontecendo na sua terra. Mudei de assunto.

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Antes de sairmos do Brasil, eu tinha escrito algumas crônicas sobre o que nos esperava nos Estados Unidos. Escrevi, por exemplo, que o “breakfast” explicava os americanos. Que os americanos eram como eram porque não quebram o jejum, simplesmente, ao acordar. Estraçalham o jejum. Todas as conquistas americanas se deviam ao fato da sua civilização ser a primeira na história a conseguir comer ovos, bacon e panquecas com melado de manhã. Os rifles de repetição tinham ajudado, mas os verdadeiros conquistadores do oeste americano eram os grandes breakfasts. O lema do país, escrevi, poderia muito bem ser “Caloria é destino”. 

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Mas a nossa chegada na Califórnia coincidiria com uma lição bem mais séria sobre a excepcionalidade americana. Se pouca gente no país sabia que um campeonato daquele estranho esporte chamado “soccer” iria começar dali a dias, como a minha companheira do avião, o fato tornou-se ainda mais insignificante em contraste com a grande notícia do momento: a espetacular perseguição policial do astro do futebol americano e do cinema O.J. Simpson, suspeito de matar sua ex-mulher e o amante. Quando descemos em San José, a televisão mostrava Simpson fugindo em alta velocidade pelas ruas de Los Angeles num utilitário Ford, perseguido pela polícia e sendo aplaudido pelos negros por onde passava. Quem se interessaria por Copa do Mundo com um filme daqueles se desenrolando em tempo real? 

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Mas nós estávamos lá para cobrir a Copa. A maioria, ocupada em instalar o equipamento para a cobertura e fazer um reconhecimento do local, não se deu conta do que estava acontecendo com a perseguição e a eventual captura de O.J. Simpson – certamente a pessoa mais famosa a ser acusada de um assassinato no mundo desde que levantaram a hipótese de que Jack, o Estripador poderia ser um membro da família real inglesa. Simpson era um herói para os negros, mas não era necessariamente um herói do ressentimento racial. Casara com uma loira e transitava no mundo das celebridades brancas de Hollywood com naturalidade. Mas quando o utilitário Ford com Simpson dentro rodou pelas freeways de Los Angeles perseguido pela polícia, os negros no caminho vibravam à sua passagem e o incentivavam como se ele ainda estivesse num campo de futebol. Tudo, inclusive a tentativa de fuga, indicava que Simpson era culpado, mas o mais importante era que ali estava um afro-americano fazendo a polícia dos brancos correr atrás dele. 

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O.J. Simpson acabou sendo absolvido, mas pouca gente acredita que ele era inocente dos assassinatos. Talvez tenha matado a ex-mulher e o namorado dela levado pela certeza de que sua celebridade de certa maneira o protegeria e o eximiria de suspeita. A celebridade tornou-se um valor independente nos Estados Unidos, o centro do seu próprio universo moral. Seu valor é definido pela cotação no mercado. Nada é tão rentável nos Estados Unidos quanto a celebridade, e tanto faz a celebridade se dever à invenção de uma nova vacina ou à castração de um marido infiel. Fizeram uma lei que proíbe as pessoas de ganhar dinheiro explorando o próprio crime em livros (“Como desmembrei mamãe”) e reportagens, mas nada impede que outras pessoas envolvidas lucrem com sua proximidade ao crime. Todos os participantes do julgamento de Simpson tornaram-se celebridades, mesmo que por pouco tempo. A promotora chegou a dar palpite sobre quem deveria interpretá-la quando fizessem o filme. E Simpson, o homem que realizara, como atleta e ator, o desejo de tantos com tanta facilidade que podia se imaginar a salvo de qualquer represália, deve ter se sentido um pouco como o Gatsby de Scott Fitzgerald quando descobriu que a promessa americana de um continente aberto para os melhores sonhos de um homem, sem obstáculos de classe ou preconceito, era uma armadilha. A celebridade lhe garantiu uma defesa de primeira classe e a absolvição, mas a celebridade não o suspendeu acima do bem e do mal. E embora ele pensasse que tivesse atravessado a fenda que separa americanos de afro-americanos desde sempre, a celebridade não impediu que seu caso se transformasse, no fim, em negros contra brancos. Como sempre.

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Minha companheira do avião, para se redimir de conhecer tão pouco o Brasil, disse que gostava muito do Julio Iglesias.

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