Celebração da liberdade e da linguagem sensual

As Bruxas de Eastwick ganha inventiva versão brasileira

Mariangela Alves de Lima, O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2011 | 00h00

Não fossem os Bush, pai e filho, teríamos esquecido que o diabo também frequenta os Estados Unidos. Os artistas norte-americanos, contudo, não se deixam enganar pela aparência laica da cultura e volta e meia emitem alertas sobre o puritanismo latente nas instituições do seu país. Foram exatamente aqueles protestantes mais virtuosos os fundadores da Nova Inglaterra. Estiveram e estão - prova a história recente - sempre prontos a eliminar o mal sobre a face da terra enquanto seus correligionários se contentam com extirpá-lo dentro de si. É a essa disposição ferrenha para a intolerância, encastelada sobretudo nas cidades pequenas, que se endereça a fábula do musical As Bruxas de Eastwick. Talvez a intenção dos autores da história (são várias adaptações) não seja mais a de fazer uma crítica oportuna aos quakers de hoje. A oportunidade já passou.

No território livre e fantástico do teatro musical, templo desde sempre consagrado a Eros, o recrudescimento do puritanismo é uma piada para se tirar proveito. Ninguém acreditaria que, no plano institucional, fosse possível retroceder ao elogio da abstinência e à negação do evolucionismo, tudo no mesmo pacote. De qualquer modo a crônica de costumes em que se baseia a peça de John Dempsey e Dana Rowe é um romance escrito em 1984 por John Updike com a provável intenção de captar as mudanças dos costumes dos anos sessenta. Quando o romance apareceu, a liberação sexual já era passado. Não se previa no livro, fonte de inspiração do espetáculo, a reviravolta conservadora do início do século 21. A história recente é um ponto de referência para tornar ainda mais exclusivamente norte-americana a fábula de uma visita galante do diabo a três senhoras provincianas entediadas.

Faz sentido, portanto, a "versão brasileira" de Cláudio Botelho. Não se trata propriamente de uma adaptação porque não há pontos de contato suficientes para uma analogia entre o puritanismo da peça e os nossos costumes. Tampouco o texto dos autores norte-americanos solicita a adesão emocional dos espectadores, um recurso apelativo que desconhece fronteiras e dá forma aos melodramas em qualquer língua. Aliás, o breve interlúdio romântico constituído pelo namoro entre os adolescentes parece uma concessão à praxe de alternar o sabor adocicado ao picante e é o momento mais frágil do espetáculo.

Mais do que traduzir para o português, a tarefa de Cláudio Botelho é, portanto, a de recriar com liberdade a linguagem da provocação sensual e do humor combativo. Sejam quais forem as circunstâncias, a sedução e a ironia inteligente têm um vocabulário preciso de palavras, gestos e cenas. Neste espetáculo, as personagens aclimatam a narrativa por meio dos diálogos e das letras das canções. Trata-se, afinal, do universo restrito de três donas de casa em um vilarejo e as frases e canções conservam o toque de simplicidade dessa experiência. Não são canções de carência física ou angústia existencial, mas expressam antes o aborrecimento das vidas previsíveis.

É esse o ponto de apoio adotado pela direção de Charles Möeller que faz das três protagonistas figuras animadas pelo prazer sensual, porém não estritamente sexual. Há um erotismo difuso e, considerando os padrões atuais de franqueza com que a arte se refere a todas as experiências humanas, bastante sutil. Entre as três senhoras que convocam do inferno o amante perfeito há uma espécie de tratamento comum que imprimem a todas as canções e diálogos em que intervém. São personagens engraçadas e harmoniosas no conjunto e transparece em cada uma, impressa nos rostos e gestos das atrizes, surpresa e deslumbramento com as possibilidades da vida. O desenho delicado funciona, neste caso com inteiro êxito, como contraste para a epidemia liberal que assola os cidadãos da pequena Eastwick. Nas danças corais - coreografadas por Alonso Barros -, o fermento demoníaco com que as moças contagiam a população assemelha-se ao vigor físico e ao tempero orgiástico dos blocos carnavalescos. Dois dos números com todo o elenco são pontos altos do espetáculo porque, além da perfeição técnica da execução, estilizam muito bem a alegria singular do êxtase coletivo.

Musicais, como qualquer outro gênero, podem cumprir todas as atribuições imaginadas para a arte do teatro. Este espetáculo, cuja pátria imaginária é a acanhada cidadela puritana da Nova Inglaterra, tem um ponto de referência distante. Deve significar outra coisa para os eleitores norte-americanos. Entre nós preenche a atribuição do entretenimento realizado com inventividade, inteligência, maestria e a execução técnica irrepreensível da equipe dirigida por Charles Möeller. E, como oferta exclusiva para o público brasileiro, oferece os desempenhos extraordinários de Eduardo Galvão, Maria Clara Gueiros e Fafy Siqueira.

AS BRUXAS DE EASTWICK

Teatro Bradesco. Rua Turiaçu, 2.100, tel. 3670-4141. 5ª e 6ª, 21h; sáb., 17h e 21h; dom., 16h e 20h. R$ 10/ R$ 190. Até 11/12.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.