Cecilia Kerche, vida no palco

Fotobiografia recupera trajetória da primeira bailarina do Municipal do Rio, que completa 50 anos

Roberta Pennafort / RIO, O Estado de S.Paulo

13 Outubro 2010 | 00h00

A pequena Cecilia começou a fazer aulas de balé clássico aos 8 anos. Não sonhava em ser profissional, apenas foi acompanhar a irmã, um ano mais nova, de quem era inseparável. Greice acabou se voltando à aeróbica, e se tornou campeã brasileira na modalidade. Já Cecilia Kerche abraçou o balé como prioridade de toda uma vida e, graças ao talento e ao trabalho diário, se tornou primeira bailarina do Teatro Municipal do Rio.

Isso foi em 1985, quando a bailarina, nascida em Lins, pequena cidade da região de Bauru, no interior de São Paulo, tinha 25 anos. No dia 14 outubro, ela completa 50 anos, na condição de ícone - "o melhor cisne do mundo", nas palavras da russa Natalia Makarova, considerada a melhor intérprete do século 20 do papel principal de O Lago dos Cisnes.

Uma bela data para o lançamento da fotobiografia com seu rosto e seu nome na capa, que conta em belas imagens seu encontro definitivo com as sapatilhas de ponta. Um encontro tão acertado que ela já começou no Municipal como demi-solista, à frente do corpo de baile.

São registros de movimentos sobre-humanos nos palcos, dos balés que mais dançou, Don Quixote, O Quebra-Nozes, Giselle, La Bayadère, Coppélia, além d"O Lago - em suma, todo o repertório mais relevante do século 19. E também de momentos de aulas, sem maquiagem nem fantasia. Do jornalista Felipe Branco Cruz, do Jornal da Tarde, os textos que resgatam histórias de sua participação nos espetáculos vêm em português, inglês e espanhol.

Bela, esguia, expressiva dos pés ao rosto, a embaixatriz da dança (título outorgado pelo Conselho Brasileiro da Dança, órgão vinculado à Unesco) aparece solando ou nos braços dos parceiros em sua arte - ao longo da carreira, dançou com nomes como o norte-americano Fernando Bujones, o argentino Julio Bocca e o russo Igor Zelensky. O virtuosismo a conduziu ao mundo todo, em turnês de Buenos Aires a Moscou, passando pelos Estados Unidos e toda a Europa e chegando à Austrália.

Os companheiros de palco foram testemunhas da determinação da moça que, aos 15 anos, se olhou no espelho e fez uma promessa a si mesma: "Eu me lembro como se fosse hoje. Disse que até os 25 anos viraria a primeira bailarina do teatro mais importante do meu país", conta Cecilia, que nunca acreditou só na vocação e na pré-disposição física (sua flexibilidade é impressionante) para a dança. "Ainda mais hoje, com a concorrência que existe, o balé é 100% talento e 100% trabalho. A dedicação é exclusiva."

Como diz na apresentação a professora e coreógrafa Dalal Achcar, grande incentivadora, "não foram suas aptidões que a levaram ao estrelato". "Foi a capacidade de discernir que para o desenvolvimento completo dos atributos que a natureza lhe havia dotado, além do amor à dança, era necessário uma força de vontade férrea."

A exaustão do corpo já a levou à mesa de cirurgia quatro vezes. A última lesão foi no quadril (parecida com a do tenista Gustavo Kuerten), logo depois de dançar Romeu e Julieta nos Estados Unidos. Ela está sem calçar as sapatilhas há um ano e meio. Um tormento, e motivo de incertezas. "Não sei como vai ser voltar, não vejo a hora. Mas me recuperar tem feito parte da minha carreira. O mais dolorido é não poder dançar", lamenta Cecilia, que durante essa recuperação não ficou em casa: tem trabalhado passando sua experiência como preparadora de bailarinas mais jovens. No próximo dia 7, Dom Quixote volta aos palcos do Teatro Municipal, com ela nos bastidores.

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