CD recupera cosmopolitismo da obra de Telemann

Contemporâneo de Bach, compositor alemão é revisitado por Alfredo Bernardini, que escolheu três de 125 aberturas

JOÃO MARCOS COELHO, ESPECIAL PARA AE, Agência Estado

02 de janeiro de 2014 | 10h22

Todo compositor alemão antenado com as novidades da música instrumental tinha de conhecer a abertura-suíte para cordas a quatro (2 violinos, viola e violoncelo) e pares de oboés, flautas ou outros sopros. A estrutura era simples. Começava com uma abertura à francesa em dois ou três movimentos - lento-rápido ou lento-rápido-lento - anunciando uma sequência de danças e o que mais a imaginação do compositor concebesse.

O CD Ouvertures à 8 modifica a imagem conservadora que se tem modernamente de George Philipp Telemann, contemporâneo de Bach. Traz três Aberturas à 8, com o Ensemble Zefiro, liderado por Alfredo Bernardini. Costuma-se contrapor a genialidade de Bach a certo gosto pela repetição em Telemann. Mal comparando, ele era um sujeito cosmopolita, enquanto Bach era um idealista que não viajou mais de 100 quilômetros ao redor de sua diminuta Eisenach natal.

Telemann inventou os concertos públicos pagos nas cidades alemãs (algo que acontecera antes em Londres). Seus ouvidos eram ecléticos como os de Bach. Curtia e emulava o concerto italiano, praticava a cantata alemã, a ária francesa, a sonata à Corelli, a ópera cômica alemã. Mas preferia a música francesa. Chegou a dizer que seus concertos tinham o perfume da França.

Bernardini foi certeiro ao escolher três de uma série incrível de 125 aberturas de Telemann. Ele inova na instrumentação como Bach inovou nas suítes orquestrais. Coloca, sobre o quarteto de cordas, não dois, mas três oboés, intensificando o brilho na região aguda do discurso musical; e um fagote, que sustenta com seu timbre grave o conjunto sonoro, como se fosse uma espécie de contrabaixo. Cordas e madeiras ora se interpenetram, ora formam dois sólidos conjuntos de timbres distintos. Isso dá um som superadocicado às aberturas e lances surpreendentes como a Harlequinada da abertura em ré maior ou os Combattans da abertura em si bemol maior.

O resultado é duplamente encantador. Seduz pela instrumentação inusitada, filigranas de escrita e variedade - a primeira abertura tem oito movimentos e as duas seguintes têm nove cada uma.

Nas últimas duas décadas, grupos italianos parecem ter reequilibrado o jogo da música historicamente informada com os famosos ingleses, alemães, holandeses e belgas. O fraseado preciso, a articulação exata e a opção por reduzir o grupo a um instrumento por parte encarregam-se de 70 minutos de música luminosa.

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