CD novo traz Bee Gees e Cole Porter para a bossa

Diana Krall cortou como um raio o céu do mundo do jazz vocal em 1999, quando lançou o disco When I Look in Your Eyes, orquestrado por Johnny Mandel. Numa época de predomínio do abuso do scat, de cantoras barulhentas, ela propunha uma abordagem cool, quase minimalista do gênero. Dois anos mais tarde, chegou ao definitivo estrelato já com um toque de gênio na escolha dos arranjos: lançou The Look of Love, orquestrado por Claus Ogerman, o alemão que deu um toque internacional à bossa nova e produziu os clássicos discos The Bill Evans Trio With Symphony Orchestra, Francis Albert Sinatra and Antonio Carlos Jobim e o paradigmático Amoroso, disco de 1970 com o qual João Gilberto ancorou seu domínio no jazz americano.

Entrevista com

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

04 de setembro de 2010 | 00h00

The Look of Love vendeu 1,6 milhão de cópias nos Estados Unidos na época, e outra grande quantidade no resto do mundo. Desde então, ela já fez 11 discos.

Agora, com o álbum Quiet Nights, lançado no ano passado, Diana volta àquele insight inicial, buscando renovar seu vínculo com a bossa. Recorre de novo ao mago Claus Ogerman, agora octogenário, e chega ao ponto de cantar música de Tom Jobim em português. Ao lado de um quarteto (Anthony Wilson na guitarra, John Clayton no baixo, o baterista Jeff Hamilton e mais o percussionista brasileiro Paulinho Da Costa), além da orquestra regida por Ogerman, ela definiu Quiet Nights como "uma carta de amor para meu marido", o cantor Elvis Costello, com quem se casou em 2003.

Ao lado de versões de clássicos da bossa, como The Boy from Ipanema, ela empunha standards do jazz, como Everytime We Say Goodbye (Cole Porter), e antenas pop, como Walk on By (Burt Bacharach) e How Can You Mend a Broken Heart (Bee Gees). O piano de Diana é dedilhado com sonolência quase "ipanemística" em So Nice, e ela arrasta a voz de um jeito "smoky" em Quiet Nights (Corcovado), o que confere um ar de música ambiente ao disco - embora ela nunca se deixe enredar em facilidades. E, de qualquer modo, a associação de bossa com muzak não é uma invenção de Diana Krall. Mas, no disco, às vezes essa busca obsessiva pela suavidade da bossa pode parecer maçante, no entanto.

Na linha das cantoras que se autoacompanham ao piano, sua técnica é respeitabilíssima (seu mentor no estilo foi Jimmy Rowles, que acompanhou Billie Holiday). Parece bastante inspirada por Shirley Horn e Carmen McRae. "Mas a ilusão, quando se desfaz, dói no coração", canta Diana em Este Seu Olhar, com um agradabilíssimo português de viagem. Diana brinca, mas compreende muito bem o universo musical em que se meteu.

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