CD DE MELODIAS PARAGUAIAS SÓ TEM ITALIANOS

Os jesuítas atuaram na América espanhola e portuguesa por duzentos anos, entre meados dos séculos 16 e 18. Em livro recente, Marcos Holler, em minuciosa pesquisa sobre sua ação no Brasil, afirma que eles fizeram a catequese dos índios e também fundaram colégios nos centros urbanos, numa ótima estratégia do ponto de vista da coroa portuguesa; e usaram a música como elemento-chave de sedução e convencimento dos índios (hoje falaríamos em 'aculturação'). Foram expulsos daqui em 1759, e oito anos depois da América espanhola.

JOÃO MARCOS COELHO, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

07 Fevereiro 2013 | 02h09

Há um quarto de século alguns pesquisadores franceses redescobriram o chamado barroco latino-americano, sobretudo a partir de manuscritos encontrados no Peru e Bolívia. Para comemorar seus 25 anos, o movimento Les chemins du baroque dans le Nouveau Monde, que hoje inclui um centro cultural e uma gravadora, K617, acaba de lançar o CD Paraguay Barroco.

É impossível não associá-lo à imagem do país vizinho carimbada por Ciudad del Este. Você compra o CD físico ou faz o download pensando que vai ouvir música barroca paraguaia - mas não há, em suas dezoito faixas, nenhuma paraguaia autêntica. É tudo fake. Os franceses fizeram uma maquiagem meio maluca, misturando música barroca de dois italianos que jamais puseram os pés no Paraguai: o romano Domenico Zipoli (1688-1726) até que passou perto, pois viveu em Córdoba, Argentina, onde compôs músicas sacras que se espalharam pelas reduções jesuíticas na América espanhola, em Cuzco e Potosí, entre outras. Mas enxertar o CD com duas obras de Antonio Vivaldi é de fato excessivo (a Sinfonia para cordas e contínuo RV 116 e o Concerto em sol maior para dois violoncelos). Custava colocar mais Zipoli, que tem relação indireta com as Missões paraguaias?

Isso exige explicação. A província jesuítica do Paraguai foi provavelmente a que teve ação mais efetiva dos missionários. Nas primeiras décadas do século 18 havia 30 reduções, ou missões, reunindo no total cerca de 150 mil índios. Mas após sua expulsão, em 1767, como aliás aconteceu no Brasil, destruiu-se tudo que lembrasse sua passagem. A Guerra do Paraguai, entre 1864 e 1870, destruiu o que ainda ficara em pé.

Mas a gravação é bastante interessante, desde que não nos prendamos a estes detalhes menores (ou maiores?). São todos músicos jovens, a maioria paraguaios formados lá mesmo em Assunção, com estudos em outros centros da América Latina como Buenos Aires e Brasil (a violinista Regina Yugovich, que também toca flauta doce, estudou com Esdras Rodrigues; Pacita Díez Pérez estudou viola com Emerson de Biaggi). Alexandre Chauffaud é o fundador do grupo, toca cravo, órgão e rege; tem dupla nacionalidade e estuda na França desde 2002, tendo fundado o grupo em 2008, por iniciativa do Couvent.

Gostei bastante da jovem soprano paraguaia Jessica Bogado. Esqueçam Vivaldi (há outras versões muito superiores, claro). Mas concentrem-se em Zipoli - na bela, curtinha e scarlattiana cantata Mia belle Irene, composta quando ele ainda morava em Roma. Ou então na surpreendente Zuipaqui, já mais vivaldiana, com o violino solista dialogando com Jessica, uma obra pedagógica escrita em Córdoba e distribuída para as outras missões espalhadas pela América espanhola, servindo de modelo estético para os músicos locais. O texto tem duas versões: o original latino e na língua dos índios Chiquitos bolivianos. É cantado aqui na língua indígena.

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