André Cáceres
 Renato Dalmaso lança 'O Elísio' pela editora Avec, na CCXP André Cáceres

CCXP: Como é a vida de um quadrinista iniciante no evento

Artista que largou emprego para estrear nos quadrinhos em 2019 fala sobre como foi participar da CCXP

André Cáceres, O Estado de S.Paulo

07 de dezembro de 2019 | 16h42

Há dois anos, Renato Dalmaso era gerente de uma loja e apenas desenhava por diversão. Aos 35 anos, decidiu largar o emprego e se arriscar no mundo dos quadrinhos. Agora ele está na CCXP vendendo e autografando sua obra de estreia, O Elísio, lançado pela editora Avec.

"Esse projeto me atormentava desde 2012", conta ele ao Estado. "Eu sempre quis fazer uma história de guerra, mas também queria falar sobre o Brasil."

O Elísio narra a saga verdadeira de Eliseu de Oliveira, pracinha brasileiro que combateu durante a 2.ª Guerra Mundial e foi capturado pelo exército nazista na Itália, tendo sobrevivido à tortura. Morto em 2012, o soldado inspirou uma monografia que Dalmaso usou para compor sua graphic novel.

Para participar da CCXP, o quadrinista precisou não apenas passar por um processo seletivo que filtrou as milhares de inscrições para o evento, mas pagar R$ 450 por um espaço no Artist's Alley, onde os autores de HQs podem exibir seu trabalho e vender suas obras. (Cada mesa, que pode ser dividida por mais de um artista, custa R$ 900.)

"Faz sentido participar da CCXP como autor iniciante desde que você faça um marketing da sua obra com antecedência", explica ele, que enviou seu trabalho para diversos críticos e obteve resenhas positivas antes de ir ao evento. "Ninguém me conhece, mas a maior parte das pessoas que vieram comprar meu quadrinho havia lido alguma resenha", acrescenta.

Na tarde do sábado, terceiro dia de evento, Dalmaso já havia vendido 120 de seus livros, o que fez sua participação compensar a falta de auxílio para alimentação dos artistas e o estacionamento de R$ 50.

O quadrinista conta que teve parentes que lutaram no conflito, mas suas principais inspirações vieram de outros autores, mais especificamente de Ás Inimigo, de George Pratt, além de trabalhos de Alex Ross e Alex Raymond, que influenciaram bastante sua arte aquarelada.

Agora, Dalmaso está preparando um novo quadrinho para 2020, e pretende voltar à CCXP na edição do ano que vem. "Valeu muito a pena", comemora o artista.

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CCXP 2019: Maurício de Sousa anuncia novo filme da Turma da Mônica

Artista compartilhou seus planos para 2020; séries do Globoplay também ganharam novos detalhes

Guilherme Sobota, O Estado de S.Paulo

06 de dezembro de 2019 | 20h08

Uma das buscas da CCXP em 2019 é ganhar relevância em anúncios impactantes para a indústria do entretenimento como um todo – quando os participantes são brasileiros, a concretização dessa ideia é muito mais fácil. É o caso do Globoplay e da Mauricio de Sousa Produções – as duas empresas foram protagonistas de painéis na CCXP 2019 nesta sexta, 6, apresentando novidades para 2020.

 

 

A MSP anunciou uma parceria com a Disney para a produção de conteúdos para o lançamento do novo Star Wars. No painel, com a presença de Mauricio e Mônica de Sousa, a empresa apresentou uma amostra da Turma da Mônica Toy com as roupas da franquia galáctica. Outro anúncio: Turma da Mônica: Lições, segundo filme da MSP, começa a ser filmado em janeiro de 2020 e terá Daniel Rezende, o mesmo diretor de Laços. O elenco também permanece – a nova história tem um contexto escolar, inspirado na Graphic MSP de Vitor e Lu Cafaggi.

As HQs autorais do universo da Turma da Mônica ganham quatro novas edições em 2020, e uma delas é a continuação de Jeremias – Pele, de Rafael Calça e Jefferson Costa (vencedores do Jabuti). Novos livros sobre Penadinho (Paulo Grumbin e Cristina Liko), Astronauta (Danilo Beyruth) e a primeira edição do Cascão (Camilo Solano) também saem ano que vem.

Uma série com atores reais, inspirada no livro sobre Jeremias, também está em fase inicial de desenvolvimento.

Já o Globoplay deu mais detalhes sobre a produção de três novas séries originais da plataforma de streaming da GloboEu, Avó e a Boi é uma série de comédia com Vera Holtz e Arlete Salles, com roteiro de Miguel Falabella e direção de Paulo Silvestrini. Em conexão com o momento, a obra traz duas famílias que se afastam por conta da rivalidade das duas personagens.

Onde Está Meu Coração vai abordar o tema da dependência química. Criada por George Moura, a série tem no elenco Fabio Assunção, que enfrentou a dependência na vida real. No painel, o ator disse estar feliz em poder trabalhar o assunto em uma série, e “não tendo a minha imagem roubada para isso”.

Mas a principal aposta da plataforma é Desalma, produção que caminha entre o drama e o terror, com forte pegada sobrenatural. O diretor é Carlos Manga Junior e o elenco tem Cassia Kiss, Maria Ribeiro e Cláudia Abreu. No total, nesta CCXP, o Globoplay anunciou 16 produções originais para 2020, entre inéditas e novas temporadas

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'Hoje todo mundo é geek, mas ninguém percebeu', diz CEO da CCXP19

Pierre Mantovani fala sobre as expectativas para o evento que começa nesta quinta-feira, 5, em São Paulo

André Cáceres, O Estado de S.Paulo

04 de dezembro de 2019 | 07h00

De Maurício de Sousa aos Vingadores, o mundo da cultura pop se reúne em São Paulo esta semana para a 6ª edição da Comic Con Experience (CCXP) começa nesta quinta-feira, 5, já com seus ingressos esgotados. 

“Somos a maior Comic Con do mundo pelo terceiro ano seguido”, afirma Pierre Mantovani, CEO da CCXP. A lotação máxima foi atingida pela primeira vez este ano, demonstrando a evolução do evento criado em 2014. Esperando um público de 280 mil pessoas, a CCXP terá cerca de 100 mil pessoas a mais que a tradicionalíssima San Diego Comic-Con, feira criada em 1970 e que foi a inspiração para o evento brasileiro. 

Para Mantovani, a proporção que a CCXP tomou no País é um reflexo da própria sociedade: “Hoje em dia, todo mundo é geek, mas ninguém percebeu. Tem muito mais gente assistindo a séries, jogando videogames, do que vendo novela.”

Para atender a essa demanda, durante os quatro dias de evento, o público terá acesso a palestras de artistas estrangeiros e nacionais; oficinas de quadrinhos; discussões sobre o atual estado da cultura nerd, além de lojas e estandes com atrações de empresas e estúdios de cinema.

Alguns dos principais destaques da programação da feira são os painéis com os elencos de filmes aguardados, como Star Wars: A Ascensão Jedi e Mulher-Maravilha 1984

Séries de TV e streaming como The Boys (Amazon Prime Video), La Casa de Papel (Netflix) e His Dark Materials (HBO) também terão apresentações com seus elencos, provando a relevância desse formato para a cultura pop atualmente.

Como não poderia deixar de ser, no entanto, o coração da feira são os quadrinhos. No ano em que o Batman completa oito décadas, grandes nomes que contribuíram com o personagem, como Frank Miller, Neal Adams, Joelle Jones, Mikel Janin e Frank Quitely, terão painéis para falar sobre o Morcego. Entre os representantes brasileiros, Mike Deodato Jr., Rafael Grampá, Laerte, Rafael Coutinho e Joe Prado são alguns dos quadrinistas que devem palestrar. 

Embora a música não seja o foco do evento, os visitantes da feira também poderão conferir shows das bandas brasileiras Far From Alaska, Fresno, Supercombo e Scalene.

É esperado que a CCXP movimente ao todo R$ 265 milhões na cidade de São Paulo, o que chama atenção também para o impacto econômico da cultura de modo geral. “Se somar todas as indústrias que estão aqui, games, cinema, música, a economia criativa é muito grande e ainda há muita oportunidade de crescer, o Brasil deveria surfar mais nessa onda e investir em cultura”, acredita Mantovani.

A CCXP ocorre na São Paulo Expo (Rodovia dos Imigrantes, km 1,5, Água Funda) de 5 a 8 de dezembro de 2019, e fica aberta nos seguintes horários: quinta-feira e sexta-feira, das 12h às 21h. Sábado, das 11h às 21h. Domingo, das 11h às 20h. Fique por dentro da programação completa do evento.

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CCXP quer ser evento global da indústria

Festival brasileiro já é recordista em público; agora, busca novidades impactantes

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

05 de dezembro de 2019 | 06h00

A sexta edição da CCXP - antiga Comic Con Experience - começa oficialmente nesta quinta-feira, 5, com o line up mais estrelado de sua história e com a clara ambição de se tornar um evento global. A presença de nomes como o chefão da Marvel, Kevin Feige, e o diretor (J. J. Abrams) e o elenco principal (Daisy Ridley, John Boyega e Oscar Isaac) do novo Star Wars são demonstrativos de que o evento, já recordista de público entre as diversas feiras de cultura pop do mundo, pode ganhar relevância também em anúncios e novidades impactantes na indústria - papel que ainda fica reservado à Comic Con de San Diego, nos EUA, quase que com exclusividade.

Aqui, são 115 mil metros quadrados no São Paulo Expo, na zona sul da capital paulista. Todos os ingressos já estão esgotados - as entradas começaram, no primeiro lote, a partir de R$ 90 por dia e chegavam a R$ 8 mil, na experiência completa, que dava direito a fotos e autógrafos de artistas, lounge VIP entre outras atrações. O evento tem um impacto, segundo a produção, de R$ 265 milhões em São Paulo. São esperadas 280 mil pessoas nos quatro dias.

Muito do que torna a CCXP um sucesso de público é o conceito que a Omelete Company, empresa organizadora e idealizadora, aplica ao evento. “O princípio básico é que nunca vimos isso como uma feira”, explica o CEO da Omelete, Pierre Mantovani. “Feira é quando tem um estande, e o visitante não comanda a experiência, vai apenas pegar panfleto. O que nós temos aqui é um festival de cultura que acontece mesmo chovendo, porque é coberto. A permanência aqui dentro é de 8 horas. Todas as ativações e as formas que as marcas se relacionam com os visitantes são para brincar, interagir e se divertir.”

Entre as ativações deste ano, está uma réplica do Expresso de Hogwarts, o trem de Harry Potter, feito com a supervisão de Alan Gilmore, diretor de arte da franquia. No estande da Warner, os visitantes podem visitar um bar das Aves da Rapina e fazer as maquiagens das personagens, ou sentar e tirar fotos no sofá de Friends. No espaço da Turma da Mônica, os fãs poderão montar vídeos, em um estúdio chroma-key, dentro do ambiente dos quadrinhos e depois compartilhar nas redes sociais. São 70 marcas presentes, e 15 estúdios de Hollywood e plataformas de streaming.

Terminou ainda nesta quarta-feira, 4, o Unlock CCXP, espaço dedicado ao desenvolvimento da indústria do entretenimento. Foram 70 palestrantes de diversos segmentos debatendo e apresentando ideias de inovação para a área. “Não fomos só nós que evoluímos, foi o mercado como um todo”, diz Mantovani. Para ele, a CCXP provou que investir no fã (com experiências dedicadas ao visitante) vale a pena. No Unlock, também foram divulgados os dados da pesquisa Geek Power 2019, com um perfil e amostra dos hábitos de consumo do público geek brasileiro, feita em parceria com o instituto MindMiners (veja dados abaixo).

Mas provavelmente o maior destaque da CCXP deste ano seja mesmo o time de atores, diretores e escritores que o festival traz ao Brasil. Além dos 530 quadrinistas do Artists’ Alley (“coração” da feira, com exposição de quadrinhos, artes e sessões de autógrafos), e dos nomes citados no primeiro parágrafo deste texto, estarão em painéis ao longo dos quatro dias gente como Margot Robbie (e o restante do elenco de Aves de Rapina), Gal Gadot e Patty Jenkins (falando de Mulher-Maravilha 1984) e Frank Miller, o criador do Cavaleiro das Trevas. Não é pouco.

DADOS DA PESQUISA GEEK POWER 2019

63% dos geeks no Brasil são homens, e 37%, mulheres. 38% têm até 24 anos; 40% têm entre 25 e 34 anos; 22% têm entre 35 e 54 anos. Em questões familiares, 72% são solteiros e 87% não têm filhos. A separação em renda fica assim: Classe A (12%), Classe B (30%), Classe C (28%) e D (30%).

56% têm ensino superior completo ou cursando. 5% têm mestrado ou doutorado e 16% possuem alguma especialização. No estilo de vida, 79% dizem estar tentando se alimentar de maneira mais equilibrada e 54% praticam algum exercício físico, como musculação e corrida.

94% assinam serviços de streaming para vídeos, e 62% usam o Spotify durante a semana. As séries mais aguardadas pelos geeks em 2020 são Stranger Things, La Casa de Papel e Falcão e o Soldado Invernal. E os filmes são Mulher-Maravilha 1984, Black Widow e Os Eternos.

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CCXP19 recebe Owen Dennis, criador de ‘Trem do Infinito’

O artista, que também foi storyboarder de ‘Apenas um Show’, vem divulgar a primeira temporada de seu novo desenho

Maiara Santiago, especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

05 de dezembro de 2019 | 06h00

Owen Dennis, storyboarder do famoso desenho Apenas Um Show, já está de malas prontas para o Brasil, onde vai participar de um painel na Comic Con Experience (CCXP) 2019, já na próxima sexta-feira, 6, no Auditório do Cinemark XD. No entanto, o convidado do Cartoon Network vem para divulgar a primeira temporada de seu novo trabalho, o Trem Infinito - um pouco menos conhecido.

Apenas um Show foi cancelado em 2018, após oito temporadas. Ele começou em 2005. Mas esse não foi o foco de Owen durante a conversa que teve por telefone com o Estado. Ele quer mesmo é falar de Trem Infinito. “Estou muito ansioso para falar com o público sobre o show, do que ele se trata e o que eles podem esperar com a chegada da segunda temporada.”

O desenho conta a história de Tulip, uma jovem de 12 anos, filha de pais separados e que vem de um lar disfuncional. Com uma pegada ultramoderna, a personagem é uma programadora de jogos e, consequentemente, uma gamer. Durante uma briga com a mãe, ela foge até a floresta e embarca em um trem misterioso, onde conhece o robô One-One. Porém, as coisas fogem de controle assim que ela percebe que cada vagão é um mundo particular e interminável, que não permite brecha para uma fuga.

 

No Brasil

Com uma estreia tímida, o desenho foi exibido pela primeira vez no Brasil em 2019, sem dublagem e com legendas em inglês. Tudo muito simples. No entanto, para quem acompanhou com atenção, foi possível perceber a mensagem de inclusão que há por trás da ficção.

“Quero transmitir sentimentos de empatia e falar da necessidade da mudança. Quero mostrar que todos nós somos diferentes e que temos problemas em nossas vidas, mas que, mesmo sem perceber, estamos lidando diariamente com eles.”

E, acredite, nada aqui é mera coincidência. O fato de Tulip carregar em si tantas características fortes e muito específicas, como o fato de vir de um ambiente agressivo, em que brigas e decepções são constantes, é aquele detalhe a mais que faz todo sentido no final.

“O que torna a pessoa perfeita para embarcar no trem é o fato de que esse é um local hostil e que somente pessoas que já lidaram com eventos incontroláveis, como o fato de seus pais se divorciarem, por exemplo, conseguem sobreviver em um universo ilógico onde as regras nem sempre são válidas. Mas, além da viagem, o mais importante é ver o que se aprende após passar por uma experiência tão intensa”, explica.

Aos fãs, e navegantes de primeira viagem que também se apaixonaram por Tulip, temos um spoiler: a jovem volta para a segunda temporada, ainda sem data de estreia no Brasil. “Agora é a hora de vermos o que mudou após os eventos da primeira temporada”, finaliza.

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Quadrinistas celebram 80 anos do Batman em tributo

Painel reúne artistas brasileiros e estrangeiros que marcaram a história do personagem dos anos 1960 até os dias de hoje

André Cáceres, O Estado de S.Paulo

05 de dezembro de 2019 | 20h43

O primeiro dia da Comic Con Experience - CCXP 2019 foi marcado, entre outros eventos, por uma celebração dos 80 anos do Batman. A ocasião, que motivou até o cartaz do evento a trazer uma arte de Mike Deodato Jr com o Homem-Morcego, reuniu vários quadrinistas que marcaram época no comando do personagem.

A velha-guarda dos quadrinhos foi representada por Neal Adams, artista de 78 anos que ajudou a revitalizar o Batman na década de 1970, quando sua popularidade já estava em baixa mais de 30 anos após debutar nas páginas da revista Detective Comics, quando foi concebido por Bob Kane e Bill Finger, em 1939. “É muito interessante interpretar o Batman, mas nós, artistas, ainda não sabemos exatamente o que é o personagem. Quando você ajuda alguém sem pedir nada em troca, você é o Batman também”, afirmou Adams, que foi ovacionado pela plateia quando disse que “o Coringa é a insanidade que cria alguns presidentes”. Adams marcou época com sua bem-sucedida parceria com o roteirista Dennis O’Neil, com quem criou alguns personagens secundários, como o vilão Ra’s al Ghul, além de restabelecer o status de antagonistas clássicos, como o Coringa e o Duas Caras.

O brasileiro Rafael Grampá, que está colaborando com o lendário roteirista Frank Miller em uma nova sequência de O Cavaleiro das Trevas, disse que acrescentou prédios e detalhes da cidade de São Paulo em sua versão de Gotham. “O que se pode fazer de novo no Batman? Ele já tem 80 anos, todo mundo já fez de tudo. Mas, então, você tem uma ideia, e ela sempre pode funcionar. Por isso é um personagem tão mágico”, disse Grampá.

O quadrinista Frank Quitely, que ficou conhecido por sua versão de Batman e Robin de 2009, concorda com Grampá: “Sempre haverá um Batman, o personagem continua evoluindo ainda hoje”. No entanto, ele brincou: “São Paulo poderia ser uma boa Gotham, mas o trânsito certamente atrapalharia o Batman”.

Outro quadrinista que integrou a discussão sobre o personagem foi Mikel Janin, artista espanhol que migrou do terreno independente para as HQs de super-heróis e trabalhou na versão mais recente do Batman, escrita por Tom King. “A questão desse arco é se é possível Batman ser feliz sem desistir de ser um vigilante”, explicou o artista. 

Já o argentino Eduardo Risso confessou que não sabia nada sobre o personagem quando a DC o convidou para desenhá-lo. “Hoje eu faria muitas coisas diferentes”, brincou ele. 

O painel sobre os 80 anos do Batman será reeditado no sábado, 7, às 18h, no Auditório Ultra, e contará com participação de Frank Miller

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'Não dava para viver de quadrinhos no Brasil antigamente', diz Mike Deodato Jr.

Desenhista da Marvel por 24 anos, brasileiro saiu de seu 'sonho de infância' para se dedicar a HQs autorais em 2019

André Cáceres, O Estado de S. Paulo

06 de dezembro de 2019 | 06h00

Mike Deodato Jr. é um dos principais quadrinistas brasileiros em atividade no exterior atualmente. Nascido em Campina Grande (PB), ele abriu caminho nos anos 1990 para que vários outros artistas nacionais ganhassem espaço no mercado internacional de HQs. Deodato trabalhou nas séries principais de Mulher-Maravilha, Batman, Homem-Aranha, Vingadores, X-Men, entre outros personagens. No entanto, esses não foram os primeiros super-heróis em sua vida.

 

 

Mike é filho de Deodato Borges, jornalista paraibano que foi um dos pioneiros dos quadrinhos nacionais. Inspirado por publicações estrangeiras como The Spirit, de Will Eisner, e Flash Gordon, de Alex Raymond, e competindo com a radionovela Jerônimo: O Herói do Sertão, criada em 1953 por Moysés Weltman para a Rádio Nacional do Rio de Janeiro, Borges idealizou um dos primeiros super-heróis do País - e o primeiro do Nordeste. As Aventuras do Flama foi ao ar na Rádio Borborema, de Campina Grande, pela primeira vez em 1963, e no mesmo ano ganhou as páginas dos gibis.

Tendo os quadrinhos no sangue, Mike Deodato recebeu todo o apoio do pai para iniciar sua trajetória como artista. Na década de 1980, pai e filho chegaram a produzir juntos os quadrinhos 3000 Anos Depois e Ramthar. Quando Mike passou a publicar suas obras fora do Brasil, foi descoberto pela DC Comics, que o chamou para desenhar uma edição da Mulher-Maravilha, em 1994. Após a estreia no mundo dos super-heróis, ele trabalhou em diversas edições da DC Comics e foi, por 24 anos, artista da Marvel.

 

 

Em 2019, ele se desligou da editora para se dedicar à sua veia autoral. Ao lado de Jeff Lemire, criou Berserker Unbound, quadrinho sobre um guerreiro medieval que se vê transportado para os dias contemporâneos. A obra teve quatro volumes e deve chegar ao Brasil em fevereiro, pela editora Mino.

Já em parceria com Michael Straczynski, um dos criadores de Sense8, Deodato está criando um multiverso de super-heróis para a editora AWA, liderada por Axel Alonso e Bill Jemas, ex-executivos da Marvel. Os primeiros quadrinhos dessa nova série, intitulada The Resistance, serão lançados no exterior em fevereiro.

Deodato falou sobre sua trajetória, o atual momento da cultura pop e seus projetos futuros em entrevista exclusiva para o Estado. Confira:

Como você vê o atual momento dos quadrinhos no Brasil, tendo ajudado a pavimentar o caminho para isso?

Eu vejo, na verdade, um retorno à glória que os quadrinhos tinham antes. Os quadrinhos já tiveram esse poder de penetração, que se perdeu por conta da competição com a internet, os videogames e outras mídias. Não em termos de vendas, mas de prestígio, principalmente por conta de os estúdios terem descoberto a fonte de inspiração, material para tantas produções, como filmes e séries. O Scorsese falou umas coisas bem apropriadas até sobre os filmes da Marvel, que ele não acha que são cinema... O cinema de arte perdeu espaço para um cinema mais industrial, digamos assim. Mas na época dele os diretores foram muito influenciados pelos quadrinhos também. Então é um círculo, cada um se alimenta do outro.

 

Qual foi o herói que você mais gostou de desenhar na sua carreira?

Foram tantos... Gostei muito de fazer Thanos, com Jeff Lemire. Old Man Logan, com o Wolverine velho, que também foi muito bom fazer. O Hulk também. Thunderbolt, que eu fiz com Warren Ellis. E Dark Avengers, com o Brian Michael Bendis.

 

Hoje em dia, muitos brasileiros trabalham para a Marvel e para a DC, mas você foi um dos primeiros a abrir caminho. Como foi quando você começou?

As dificuldades começaram no Brasil mesmo. Nos anos 70 e 80, eu ganhava uma mixaria, mas eu gostava. Na época, morava com meus pais. Trabalhei com meu pai, ele escrevendo e eu desenhando, por um tempo. Mas não dava para viver de quadrinhos no Brasil naquela época. Então nos anos 90 apareceu um estúdio de São Paulo, a Art Comics, e a missão deles era representar brasileiros no exterior. Fiz a primeira história, numa editora pequena, e fui galgando. Até que, em 1994, havia uma vaga para desenho na Mulher-Maravilha, fiz umas amostras e fui descoberto depois de mais de dez anos. Terminei ficando na Marvel por 24 anos, de 1995 até agora.

 

Fale um pouco sobre a relação com seu pai.

Painho foi o começo de tudo, minha grande influência, meu maior incentivador. A gente fez uma dupla. Ele criou o Flama, que foi o primeiro personagem de quadrinhos do Nordeste. Foi publicado pela primeira vez em 1963, mas ele já tinha criado com 17 anos. Era um personagem de uma novela radiofônica de muito sucesso que ele fazia. E eu sempre o vi desenhando em casa, ele fazia muita coisa, sempre foi um incentivador da produção de quadrinhos local. Quando dirigia um jornal, criava uma sessão de quadrinhos, criava um suplemento dominical para os quadrinhos. Ele sempre esteve envolvido no crescimento dos quadrinhos da região. Eu comecei a fazer quadrinhos influenciado por ele. A gente acabou produzindo quadrinhos juntos, ele escrevendo e eu desenhando, por alguns anos, então eu tive uma verdadeira aula de narrativa com os roteiros dele. Embora ele nunca tenha me dado uma aula formal, ele me apresentou todos os clássicos que importaram na minha formação e explicou por que eram bons e importantes. Autores que um jovem não procuraria. Foi uma relação essencial para a minha formação e para a minha decisão de ser um quadrinista. Para mim foi tudo.

 

Quais são seus projetos autorais atualmente?

Depois de 24 anos trabalhando com a Marvel, que foi ótimo, foi maravilhoso, eu decidi migrar para o quadrinho autoral porque eu sentia essa necessidade de fazer alguma coisa autoral. Depois que eu trabalhei com o Jeff, ficamos amigos e ele me chamou para fazer algumas coisas. Eu decidi fazer com ele esse personagem bárbaro, uma série chamada Berserker Unbound. Só que eu ainda estava em contrato com a Marvel. Então eu tentei fazer as duas coisas. Nos finais de semana, eu fazia isso, e durante a semana trabalhava para a Marvel. Diferente de um escritor, que pode escrever dez títulos por mês, um desenhista mal pode fazer dois, porque é muito trabalho. O roteirista coloca ali, "batalha de fulano contra ciclano", e acabou por aí, é a gente que vai ter que desenhar (risos). Não querendo desmerecer o trabalho dele, mas nessa parte é fácil. Ou eu vivia o sonho de ser um quadrinista da Marvel, que era meu sonho de infância, ou vivia meu sonho de adulto, que era ser um quadrinista autoral. Descobri que tinha que tomar essa decisão, porque foi muito desgastante. Decidi deixar a Marvel para fazer quadrinho autoral. Deve chegar ao Brasil em fevereiro. Foi uma experiência incrível. Ser responsável por tudo, ter uma liberdade total... Não que eu não tivesse na Marvel, mas são personagens deles, existe uma restrição do que eu posso fazer com os personagens deles. Recentemente eu assinei contrato com a AWA, do Axel Alonso com o Bill Jemas, que eram da Marvel, e criaram essa editora para publicar quadrinhos autorais. Eles me chamaram e aceitei, então estou produzindo atualmente The Resistance, com Michael Straczynski, que é autor de Sense8, Babylon 5, e deve sair em fevereiro agora. Estou muito feliz. Claro, em algum ponto eu vou sentir saudade de fazer super-heróis e devo querer fazer alguma coisa de novo, mas por enquanto estou adorando essa nova etapa da minha carreira. Assim que eu estiver passando fome debaixo da ponte, eu volto (risos).

 

Quais são as principais diferenças de se trabalhar com personagens que já existiam para personagens que você está criando?

Trabalhar com personagens já existentes, no meu caso, foi por ser fã desses personagens. É pela emoção de poder dar sua contribuição para aqueles personagens e fazê-los como você acha que eles deveriam ser feitos. Agora na AWA, por exemplo, eu estou construindo um universo. Eu e o Straczynski estamos fazendo a base do que vai ser o universo compartilhado de super-heróis, como a Marvel e a DC têm. Então tudo é novo. Qualquer personagem é novo e todos eles vão ter importância no futuro. A sensação de estar criando tudo do zero é fantástica também. E outra coisa é quando você faz um quadrinho totalmente autoral, como o que eu fiz em Berserker Unbound, com o Jeff Lemire. A sensação que eu tenho é a de quando eu estava começando, com 17 anos, no meu quarto, em casa, junto com meus amigos, quando a gente ficava ensaiando uma história. Com 56 anos, estou me sentindo com 17 agora. É fantástico.

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