CCSP alia qualidades e deficiências

Apenas em um mês, o Centro Cultural São Paulo (CCSP) recebeu 54.830 visitantes. Só a biblioteca, uma das mais completas bibliotecas públicas, com cerca de 456.919 volumes, registrou 18.553 consultas. Sem dúvida um dos espaços mais democráticos da cidade, o CCSP nem sempre trata bem seus freqüentadores.O local parece ter o dom de aliar qualidades e deficiências. Se por um lado possui um dos mais completos acervos para pesquisa em diversas áreas, o CCSP obriga usuários de sua biblioteca a fugirem das goteiras em dias de temporal. Isso sem falar nos funcionários, que correm para salvar preciosos arquivos. A cantina do local permanece fechada e os banheiros estão em condições precárias."O público se apropriou desse espaço, mas não tem sido bem atendido", reconhece Carlos Augusto Calil, que assumiu, no início do ano, a direção do centro, um órgão da Prefeitura. "Já sabemos que o nosso orçamento para o próximo ano não vai se alterar, R$ 3,7 milhões, quando precisaríamos no mínimo de R$ 12 milhões." Ele lembra que o CCSP foi inaugurado às pressas, há 40 anos, com o objetivo de abrigar sua biblioteca. "A obra nunca foi terminada." Mais que isso, o espaço foi sendo ocupado para outros fins. "Salas passaram a ser usadas para atividade teatral, mas não estavam preparadas para isso. Não há isolamento acústico, faltam camarins. O porão (Espaço Ademar Guerra) é inóspito, as paredes são úmidas. Obras costumam ser consideradas luxo, mas aqui seriam prioridade."Problemas que afetam, mas não impedem a intensa freqüência ao local. No último mês, segundo dados da assessoria de Imprensa do CCSP, a programação de música erudita atraiu 621 espectadores; o teatro 2.366; o cinema 1.613 ? sem falar das consultas à gibiteca, à biblioteca de braile, à discoteca e ao acervo do arquivo Multimeios com mais de 900 mil documentos em diversos suportes - fotografias, vídeos, textos, desenhos, croquis. Além disso, 986 pessoas freqüentaram cursos, oficinas ou palestras e 12.393 internautas consultaram o site do CCSP em outubro.E há ainda um público itinerante, que não necessariamente deixa a presença registrada. O prédio em aço e concreto de amplas entradas e espaços vazados, projetado pelos arquitetos Eurico Prado Lopes e Luis Benedito Telles convida à circulação. Numa sexta-feira do fim de novembro, era o caso de Sabrina e Felipe, ambos de 16 anos, que namoravam num dos bancos que também servia de apoio para o violão de Felipe. "Estávamos passando e ouvimos o som de uma orquestra e resolvemos entrar", diz Felipe. "Aí descobrimos que se pode jogar xadrez aqui e vamos passar a vir sempre", completa Sabrina.Já Hugo Alírio da Costa, 18 anos, estudante de técnica em eletrônica, pegou trem e o metrô para sair de Susano e fazer consultas, via Internet, num dos terminais acessíveis ao público na biblioteca do CCSP. "Vale a pena vir de tão longe, porque aqui eu encontro todas as informações que necessito para meus estudos. A biblioteca é muito boa."Danila do Carmo Moura, de 18 anos, e Cláudia Regina da Silva, de 24 anos, desde fevereiro vêm estudando juntas para o vestibular sempre acomodadas numa das mesas estrategicamente instaladas nos corredores próximos à biblioteca. "Quando cheguei aqui perguntei porque não havia mesas nos corredores. Explicaram que era porque as pessoas usavam as mesas para namorar", diz Calil, que não viu problema no uso e decidiu recolocá-las.Burocracia ? Danila entrou pela primeira vez no CCSP aos 11 anos para fazer um curso de artes plásticas. Moradora do bairro da Liberdade, nunca mais abandonou o centro, que fica ao lado da Estação Vergueiro do metrô. "Aqui é um lugar ótimo para estudar, amplo, arejado, a gente pode fazer pesquisa em jornais e revistas para trabalhos de colégio. E ainda tem cinema, teatro e shows." Mas não tem só elogios para o local. "A cantina que havia aqui era péssima e agora não tem nenhuma.""Isso é realmente um problema", completa a amiga Cláudia que afirma freqüentar o CCSP todos os dias, onde costuma ficar das 10 horas da manhã às 9 da noite. "E os banheiros são horríveis, nunca tem papel ou sabonete."A reabertura da cantina está nos planos da administração do CCSP. Mas para agravar a penúria, os administradores do centro ainda enfrentam os labirintos da burocracia municipal. "Só podemos abrir uma cantina mediante licitação. E aí somos obrigados a escolher a empresa que oferece o menor preço. Resultado: contratamos um serviço ruim." Para fugir desse entrave, tenta-se contratar uma empresa por intermédio da Associação dos Amigos do Centro Cultural São Paulo, presidida por Ilka Marinho Zanoto. Mas há impedimentos jurídicos."Tentamos captar uma verba de R$ 30 mil, oferecida pela Vitae, para recuperação de acervos do centro, mas não conseguimos. Agora, para que a verba chegue até o CCSP pelos trâmites normais são necessários 21 processos administrativos. Um absurdo", protesta Ilka. "Brecht dizia que ninguém derrota o burocrata", reclama o cineasta Ugo Giorgetti, vice-presidente da associação. "A Vitae ofereceu uma verba de R$ 100 mil para restauração dos arquivos sonoros da missão folclórica Mário de Andrade", diz Calil. "Acho que a saída são parcerias com a iniciativa privada."Alheios à angústia dos administradores, os vizinhos Yayoi Furukawa, de 72 anos e Tatuo Saito, de 77, não conseguiram apontar uma única precariedade no cinema do CCSP, que exibia, em novembro, um ciclo de filmes japoneses para a terceira idade. "Viemos no sábado, adoramos o filme e voltamos hoje."

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