CCBB abre mostra de arte francesa dos anos 70

O Centro Cultural do Banco do Brasil inaugura a exposição Os Anos Supports/Surfaces nesta terça-feira. Nela, 57 obras do centro Georges Pompidou vão estar expostas até 29 de outubro, trazendo para o público carioca artistas como Claude Viallat, Daniel Dezeuze e Louis Cane, representantes do movimento Supports/Surfaces. A escola fundada por estes artistas foi apenas uma das muitas tentativas de romper com a arte tradicional e questionar os seus limites. A quase totalidade destas iniciativas deu-se em finais dos anos 60 e ao longo da década de 70. Supports/Surfaces foi um projeto de arte sobre o processo artístico, o que resultou em obras auto-referentes, característica da exposição que abre nesta terça. Uma peculiaridade deste grupo foi seu leque de influências, que abrangia a tradição moderna francesa sem deixar de enxergar as novas estéticas produzidas nos Estados Unidos. Assim, Supports/Surfaces é um movimento em que a ousadia da ruptura fica apaziguada por uma aceitação plena da artesania, marca profunda dos franceses. "A França é um país artesanal", diz o curador Marcos Lontra, reconhecendo que as obras da exposição são, ao mesmo tempo renovadoras e um pouco tradicionais. "São séculos de Belas Artes, o que torna difícil romper completamente com a pintura acadêmica", reflete. De fato, algumas obras são inocentes, se comparadas ao estrondo que provocou a pop art de Andy Warhol ou mesmo aos brasileiros da mesma geração. Um clima geral de redefinição da obra de arte tomou conta da geração que foi jovem no início dos anos 70. O que se explica, em parte, pelas recorrentes manifestações políticas que a época presenciou e também pela quebra de valores culturais que vinham de décadas. "Mas os franceses do Supports/Surfaces, ao contrário dos brasileiros, já tinham em torno de 30 anos", explica o curador. A impressão que fica não é a de um enérgico rompimento com as tradições. Supports/Surfaces fica aquém, por exemplo, de Marcel Duchamp, francês surrealista dos anos 20 que levou um urinol para a sala de exposição, para que fosse visto fora de sua aplicação funcional. O movimento Supports/Surfaces aspiarava à arte da arte. "O objeto da pintura é a própria pintura, e os quadros expostos só se referem a si mesmos", diz um manifesto do grupo, publicado no catálogo da exposição La Peinture en Question, em 1969. De certa forma, esta é uma tendência comum à geração, que foi às fronteiras da arte. Cada um a seu modo, os artistas dos anos 70 foram os precursores da arte contemporânea. No que toca ao Supports/Surfaces, sua principal contribuição foi reciclar a pintura. Retirando do quadro o privilégio de mostrar uma imagem pintada, colocando-a sobre a parede diretamente, eles caminharam em direção à pintura com vida própria. Mas suas obras careciam de mensagem, o que por vezes sobrava em obras de outros movimentos. Uma arte que se preocupava com sua própria conformação e por isso deixou de explorar os limites de outros aspectos da arte. Esta pode ser uma leitura da exposição do CCBB.Vizinhas - Ao lado do Centro Cultural Banco do Brasil, a exposição Situações: Arte Brasileira dos anos 60 e 70 foi inaugurada na terça-feira passada, pela Casa França Brasil. Com obras de Rubens Gerchman, Artur Barrio, Carlos Vergara e outros artistas brasileiros da mesma leva, a mostra é ilustrativa de como o Brasil se apropriou daquelas que eram as mais recentes experiências estéticas. "É uma sorte que estas exposições sejam vizinhas", diz o curador de Supports/Surfaces. Sem dúvida, a comparação entre as duas prova o contraste entre o grau de ousadia de cada grupo de artistas. CCBB é na Rua 1º de Março e fica aberto de 12h às 20h de terça a domingo. A entrada é franca.

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