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CCBB abre exposição com 78 obras doadas à Rússia pelo alemão Peter Ludwig

Mostra ficará aberta por 24 horas no dia 25 para celebrar o aniversário da cidade

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

14 Janeiro 2014 | 03h00

Atualizado em 7 de março, às 12:20

O empresário alemão Peter Ludwig (1925-1996) teve, nos anos 1960, um papel basilar na difusão da arte pop norte-americana na Europa. Industrial, dono de uma tradicional fábrica de chocolate (a Ludwig Schokolade), hoje pertencente ao conglomerado Krüger-Gruppe, Ludwig era um homem refinado, doutor em História da Arte e autor de uma tese sobre Picasso, do qual viria a ser um dos maiores colecionadores. É justamente com parte do acervo doado por ele em 1995 ao Museu Estatal Russo, de São Petersburgo, que o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) montou essa grande exposição, animado com o estrondoso sucesso das mostras anteriores na instituição – a dos impressionistas do Museu D’Orsay (325 mil visitantes) e dos renascentistas italianos (317 mil) –, conta o diretor do CCBB, Marcos Mantoan.

Uma das curadoras da mostra Visões na Coleção Ludwig, ao lado dos russos Evgenia Petrova e Joseph Kiblitsky, a cubana Ania Rodríguez destaca o papel de Ludwig como colecionador de olhar culto e sintonizado com a arte de seu tempo. O alemão foi, segundo ela, um agente com forte influência sobre a produção cultural dos anos 1960 em diante, ao detectar tendências e os rumos da arte do pós-guerra. A forma que o pop Andy Warhol encontrou para homenagear o mecenas foi produzir um retrato seu em silk-screen, em 1980.

“Fui testemunha do papel que Ludwig teve, por exemplo, em Cuba, nos anos 1990”, conta Ania Rodríguez. O barão do chocolate, determinado a incentivar a produção em países marcados pela repressão a artistas, comprou uma centena de obras de contemporâneos cubanos no começo dessa década, assumindo um papel fundamental ao subsidiar a quinta edição da Bienal de Havana, em 1994. Ao morrer, dois anos depois, aos 71 anos, sua coleção era estimada em 50 mil peças, entre objetos pré-colombianos, iluminuras medievais, obras fundamentais da vanguarda russa do início do século passado, pinturas de artistas pop, telas, esculturas e cerâmicas de Picasso (a terceira maior coleção do artista na Europa) e as primeiras obras dos neoexpressionistas alemães dos anos 1980.

Eclético. Os cinco andares do CCBB no centro de São Paulo estarão ocupados até 21 de abril por 78 obras provenientes da Coleção Ludwig de São Petersburgo. É apenas uma das 12 instituições que levam o nome do magnata, nove delas na Europa. Além da Rússia, dois outros países, China e Cuba, ganharam parte desse valioso acervo. A primeira cidade a ser contemplada foi Colônia. Em 1976 foi criado o museu Wallraf-Richartz, para o qual Ludwig doou 350 obras, com a condição de ser construída na cidade uma outra instituição para abrigar sua coleção. Isso aconteceu em 1986. Em 1994, os dois museus foram separados. O Ludwig, na Bischofsgartenstrasse, ao lado da gótica Catedral de Colônia, foi enriquecido com as coleções do advogado Josef Haubrich (obras do modernismo clássico e do expressionismo alemão) e de Peter Ludwig (com todos os artistas pop que importam na história, de Andy Warhol a Lichtenstein, mais a vanguarda russa, de Malevich a Rodchenko).

Além dos pioneiros do modernismo russo e dos representantes da arte pop americana, essa coleção foi crescendo à medida que Ludwig descobria um novo movimento. O acervo tem hiper-realistas (como Pistoletto), grafiteiros (Basquiat) e os principais nomes da arte alemã da segunda metade do século passado (de Beuys a Gerhard Richter).

Seleção. Foi difícil fazer a seleção das obras que estão no acervo do Museu Russo, admite a curadora Ania Rodríguez. Os curadores optaram por um percurso cronológico pela coleção, desde os traços maduros de Picasso que retomam o cubismo (na tela Grandes Cabeças, 1969) até a arte produzida na extinta União Soviética na época da perestroika (como o autorretrato de Vladimir Yankilevsky, que retrata um pintor mutilado pelo regime autoritário), passando pelo neoexpressionismo alemão (Baselitz, Lüpertz e Kiefer) e, naturalmente, pelos representantes do pop (há telas de Warhol, Jasper Johns, Lichtenstein e Rauschenberg, entre outros).

“Ludwig tinha um olhar excepcional para descobrir talentos, uma sensibilidade contemporânea que detectava as mudanças geopolíticas”, analisa a curadora Ania Rodríguez. A arte cubana, diz ela, começou a ser olhada de outro modo por críticos e historiadores depois da subvenção de Ludwig à Bienal de Havana. “Ele abriu perspectivas e territórios para artistas como Luis Gómez.”

O diretor do CCBB, Marcos Mantoan, destaca a diversidade de escolas e estilos representados na mostra, que deverá atrair, segundo sua expectativa, mais de 200 mil visitantes. “O que as outras exposições revelaram é que esse público é também diversificado, vindo de várias regiões da cidade e até de outros Estados”, diz Mantoan, que conseguiu uma outra vitória com essas mostras: a troca da iluminação das ruas vizinhas ao CCBB e maior segurança na região.

 

 

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