Caymmi: terceira geração

Primeira neta de Dorival a lançar um disco, Juliana encanta ao escapar do nepotismo

Lucas Nobile, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2010 | 00h00

Ela nunca ouviu ninguém falar mal do avô, morto em 2008. Ele foi seu padrinho, contava-lhe histórias infindas, cantou o mar como ninguém e deixou um legado incontestavelmente genial. O pai acompanhava Tom Jobim na fase da afinadíssima Banda Nova. O tio é respeitado pelas soluções harmônicas de seu violão e também tem um baú vasto de composições. Já a tia ainda dá provas de ser uma das maiores cantoras do País, rasgando o peito com interpretações emotivas.

Aos 34 anos, Juliana Caymmi lança seu primeiro disco carregando um sobrenome de muito peso. Neta de Dorival, filha de Danilo e sobrinha de Dori e Nana, com personalidade, ela avisa não querer uma carreira guiada por apadrinhamentos.

Quando tinha 13 anos ela decidiu estudar canto popular na ULM (Universidade Livre de Música Tom Jobim). Passou na prova sem ninguém saber de sua ligação com os verdadeiros Caymmi. Ainda hoje, o máximo de empurrões que a cantora recebe da família são elogios. "Meu violão é sofrível. Para compor, tenho a felicidade de me desprender do instrumento, uso para tocar apenas uns três acordes para depois vir algum santo harmonizar para mim. Quando fiz Moço, titio Dori ouviu e achou de uma espontaneidade tremenda. Nem dava muita bola pra música, mas depois de um elogio desses, passei a botar fé nela", diz Juliana.

Outra ajuda que ela recebe dos parentes são composições. No tema que abre o disco, ela já havia decidido gravar Vento Noroeste, do pouco incensado, porém genial Elpídio dos Santos. Na mesma faixa, Juliana decidiu gravar Flecha de Prata, composta por seu pai Danilo em homenagem à avó Stella Maris, que faleceu 11 dias antes do avô Dorival. Do tio Dori, além de elogios, ela pôde contar com Desenredo (parceria com Paulo César Pinheiro). Tarefa complicada já que a música já havia ganhado registros respeitáveis, como o da tia Nana, do Boca Livre e do próprio Dori. "Decidi gravá-la de última hora, no estúdio, com o Ricardo Matsuda. Fiquei reticente, sabia que só deveria gravar se fosse pra fazer algo diferente do que já tinha sido feito", diz a cantora.

Mas por que Juliana, desde pequena convivendo com o meio musical, decidiu lançar um disco só agora? Sem nunca ter contado com pedidos da família para que lhe abrissem portas em gravadoras - naturalmente não queria isso -, ela casou cedo, aos 17 anos, teve uma filha aos 19. Sabedora das dificuldades de se viver de música no Brasil e incerta em relação a seguir uma carreira, começou a estudar Direito. Chegou a gravar um álbum em parceria com o marido, mas a separação acabou engavetando o CD.

Agora, finalmente lançando o primeiro disco, Para Dança a Vida (escutado em primeira mão pelo Estado, já que o álbum só chega às lojas em setembro, pelo selo Kalamata), Juliana mostra-se segura para trilhar longa estrada. E ela sabe que ainda tem muito a amadurecer. Talvez pela entrega excessiva em algumas faixas, a voz da cantora oscila um pouco, embora, no geral, ela seja extremamente afinada. Quem pegar o disco pensando em ouvir uma nova Nana vai se desapontar. Tudo porque a representante da terceira geração dos Caymmi não quer ser sombra do passado, muito menos imitar ninguém. Tem personalidade própria e, contando com a ajuda do arranjador, produtor e violonista Ricardo Matsuda, conseguiu fazer um disco muito diversificado, mas com unidade.

Prova disso são as etéreas Vento Noroeste e Flecha de Prata, a bossa moderna Guanabara (Fred Martins), Coco Praieiro (Eudes Fraga e Paulo César Pinheiro), a pop Não Só Pela Chuva (Fred Martins e Marcelo Diniz) e o samba Porque Sou Carioca (da própria Juliana em parceria com sua mãe, Ana Terra). "Não vou dizer que consegui em todas as faixas passar o máximo de emoção, tenho noção disso. Sem contar que não é um disco de amor rasgado, é bem variado."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.