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Caverna.club: Vesgos, corcundas e o celular

Paladinos das artes, como Leonardo da Vinci, Rembrandt, Degas, foram descobertos estrábicos depois da análise de autorretratos

João Wady Cury, O Estado de S.Paulo

04 de março de 2021 | 03h00

Férias, visita a oftalmo, não poderia ter começado melhor. Com sua gentileza oriental, chega à sala de espera e curva-se. Passa os olhos sorridentes rapidamente pelas pessoas que aguardam consulta. Ninguém nota a doutora, visto que chafurdam nos celulares. Seguimos em direção à sala. No meio do caminho, a pedra vem em forma de bisbilho: “Vamos ficar todos estrábicos e corcundas”, diz a doutora. “É a marca que os celulares deixarão nos nossos corpos”. E riu, sapeca.

ARRASTANDO CORPOS

Não bastasse essa pandeca demoníaca, ficaremos vesgos e corcundas. Já é possível vislumbrar massas de humanos rastejando por ruas e corredores de hospitais, tossindo os pulmões boca afora e ainda por cima estrábicos e tortos da espinha. Não fosse a moça um impávido colosso da oftalmologia nacional poderia argumentar que nas artes temos hordas de estrábicos e isso não é um problema. Há que se tirar vantagem da mão cromossômica da natureza. Como questionar o talento de um Denzel Washington, que pode ser visto em mais de dez filmes na Netflix, como Roman J. Israel, e agora chega aos cinemas com A Tragédia de Macbeth? Ou ainda levemente estrábicos como Penélope Cruz, Heidi Klum e Russell Crowe. 

DA VINCI, KENNEDY E MAIS

Paladinos das artes, como Leonardo da Vinci, Rembrandt, Degas, foram descobertos estrábicos depois da análise de autorretratos. Na política temos John Kennedy. E, falando no dito, já pulamos para as teteias das passarelas de moda, blondies como Claudia Schiffer e Kate Moss – esta nem tão blondie, mas incendiária de corações. Na literatura, Sartre e Hemingway. Este não era estrábico, mas tinha pálpebras finas e olhos sensíveis à luz. É um mundo justo esse que fez Hemingway saltar da cama cedo por conta da luz do sol para nos legar pérolas. Aliás, em um dia como hoje, 1952, ele botava ponto final em O Velho e o Mar. (bit.ly/3uSLaPI)

 

UMA OU DUAS CORCOVAS?

Enquanto na vitrola toca O Camelo e o Dromedário, dos Titãs (youtu.be/PIwt_KKJIIU), não há como deixar de fora o melhor corcunda e estrábico reunidos em um único corpo – sim, da ficção, mas o melhor. Marty Feldman era tudo isso e talvez mais um pouco. Eis aí um homem que poderia ter sido um abnormal, mas se transformou em supernormal – sem que pra isso precisasse de um celular. (theofficialmartyfeldman.com

É JORNALISTA E ESCRITOR, AUTOR DO INFANTIL ‘ZIIIM’ E DE ‘ENQUANTO ELES CHORAM, EU VENDO LENÇOS’

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