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Caverna.club: Uma sátira secular contra o tédio

Jornalistas sempre tiveram suas bocas cheias de palavras e um passeio digital pela hemeroteca da Biblioteca Nacional mostra que rir é a melhor resposta à ameaça

João Wady Cury, O Estado de S. Paulo

27 de agosto de 2020 | 07h42

Jornalistas sempre tiveram suas bocas cheias de palavras, essa pura expressão do ser, e é por essa característica que são reconhecidos. Claro, também suas mentes cheias de palavras, ainda que desavisados tentem locupletá-las de formas irracionais. Um passeio digital pela hemeroteca da Biblioteca Nacional é prova farta e deliciosa de publicações lançadas há 150, 170 anos, principalmente no Rio, além de outras, esparsas, no Recife e Salvador. Ali estão depositadas dezenas de gazetas em formato tabloide que mostram, sem dó nem pena, que rir ainda é a melhor resposta à ameaça.

Para morrer de rir

Tente imaginar Pindorama há 170 anos e você, vivente incauto, estacionado na Capital Federal de então, sem poder lançar mão de recursos tecnológicos como rádio, televisão, TV a cabo e muito menos um computador – geringonças que poderiam promover em sua vida uma viagem para fora do mundo do tédio e da angústia. Lia-se, claro, e as publicações eram dedicadas a tirar graça das questões cotidianas, da política, da literatura, do teatro, os dois últimos os grandes entretenimentos nacionais. A própria imprensa era diversão e tinha lá sua importância na locupletação do tempo do vivente. bit.ly/3gpd5y8 

Imprensa cortante

A Navalha era uma gazeta pernambucana, publicada pela primeira vez no Recife em 1875. E também a última vez, pobrezinha. Hebdomadário de vida curta, apenas 12 exemplares, todos nos arquivos da Biblioteca Nacional. Denominava-se “semanário crítico, chistoso e literário” e definia-se, no editorial, como “mais um alistado para o exército da imprensa”, assim mesmo, com destaque nas duas palavras. Mas há outras publicações também de tirar o chapéu. O Nicromante surgia em 1895 com um editorial arrasador: “Profliga as banalidades perniciosas, os heroísmos ridículos os escândalos, os crimes e, zombando do embuste, aponta os que erram e glorifica os que acertam”. Sim, hilário. Ainda mais quando se sabe, ao ler alguns exemplares, que, apesar de se proclamarem apolíticos, perfilavam-se como lambe-botas dos militares da vez, como o marechal Deodoro da Fonseca e o marechal Floriano Peixoto. bit.ly/32qCRx4 

Debocháticos

A Caricatura definia-se como periódico satírico teatral. Chegou cheia de vontade em 1851, ao Rio de Janeiro, definiu-se de periodicidade indeterminada e foi só. Parou por aí, como piada de si mesma. Já O Badalo é merecedor de visita obrigatória. Não é qualquer jornal que se define como periódico satírico, humorístico, epigramático e debochático. Por ser tão debochático, escondia seu endereço – que foi publicado somente em sua edição de número 18 –, possivelmente temerosos de verem alguém encher suas bocas de destempero e irracionalidade. bit.ly/3lgunBj

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