Dida Sampaio/Estadão
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Caverna.club: Um assessor de bilboquê

'Quantas vezes já falei que aqui não entra ninguém de máscara? Até você aderiu à pressão dessa imprensa comunista?'

João Wady Cury, O Estado de S.Paulo

18 de março de 2021 | 03h00

Uma sala grande no Palácio do Planalto. Sobre um sofá estão uma camiseta regata vermelha, um par de sandálias no pior estilo Rider e uma calça de moletom. Na mesa de trabalho, um pão francês cortado ao meio no sentido do comprimento, uma lata de leite condensado aberta com uma canoa de pão mergulhada, quatro paçocas, farelos, rastro de leite condensado no tampo de vidro e um bilboquê. O homem está sozinho, recolhe farelos da mesa e come. Três batidas na porta.

– Entra!

– Chamou, presidente?

– Dudu!

– Presidente!

– Você quer tirar essa máscara, Dudu? Quantas vezes já falei que aqui não entra ninguém de máscara? Até você aderiu à pressão dessa imprensa comunista?

– Não, claro que não. Eu só…

– Olha aqui, vai chegar um outro.

– Outro?

– Ministro.

– Economia?

– Saúde.

– Mas eu não quero…

– Eu sei, eu sei. É preciso, compreende?

– Você mandou, eu obedeci.

– Dudu, sentido!

– Presidente.

– Sabe o nome disso?

– Leite condensado?

– Não, Dudu. Essa coisa aqui, de madeira.

– A mesa?

– #@$%$@&$%! É sacanagem, Dudu, também está querendo me derrubar?

– Ah, o bilboquê.

– Muito bem, Dudu. 

– Bilboquê.

– Já entendi, já entendi. Bil… Então é assim que chama essa porcaria? 

– Bilboquê.

– Chega, #@$%$@! Você passou, ótimo! Está aprovado.

– Aprovado?

– Vai sair no Diário Oficial amanhã.

– O bilboquê?

– Não, Dudu. Você!

– Eu?

– Sim, meu novo assessor. 

– Assessor de bilboquê?

– Não, assessor estratégico da Presidência com especialização no apoio logístico para acondicionamento, transporte e manipulação de objeto quase perfurocortante de madeira.

– Mas eu não sei…

– Você vai ter dois anos pra aprender. Se tivermos sorte, seis.

– É difícil?

– Mais fácil que saber a diferença entre Amazonas e Amapá.

É JORNALISTA E ESCRITOR, AUTOR DO INFANTIL ‘ZIIIM’ E DE ‘ENQUANTO ELES CHORAM, EU VENDO LENÇOS’

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