Imagem João Wady Cury
Colunista
João Wady Cury
Palco, plateia e coxia
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Caverna.Club: Todo dia é um dia infinito v.2

A vida não se apaga com borracha por mais dor ou amor que se tenha vivido

João Wady Cury, O Estado de S.Paulo

31 de dezembro de 2020 | 03h00

Todo dia é um dia infinito. E este, que dizem ser o último dia do ano, carrega como uma maldição, para o bem e para o mal, todos os outros dias, um resumo do que se passou nos 364 dias anteriores. Mas pode ser o seu inverso. O 31 de dezembro é também chamado de 0 de janeiro e a astronomia está aí para provar. É providencial, ainda mais em um ano como este que se vai, uma forma de zerar tudo o que passou, aniquilar a memória, com suas frases, seus fatos e essa pandeca pandemônia – ainda que saibamos que a danada da memória não seja assim, uma tolinha. 

Não se engane. A vida não se apaga com borracha por mais dor ou amor que se tenha vivido. É o que nos faz e fará melhores ou piores, à escolha da freguesia. Está eternamente aí o bom e velho Drummond para provar, no poema que celebra e amarga a vida como poucos, Passagem do Ano: “Recebe com simplicidade este presente do acaso. / Mereceste viver mais um ano. / Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos. / Teu pai morreu, teu avô também. / Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras espreitam a morte, mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo, e de copo na mão esperas amanhecer.”.

Em um dia como este, em 1879, o sapeca Thomas Alva Edison deu luz pela primeira vez em público. Claro, do seu jeito de professor Pardal endiabrado. Para um público reunido em Menlo Park, Nova Jérsei, levou sua lâmpada e acendeu e desligou a dita cuja várias vezes, para o estupor da galera embasbacada, que depois uivou de felicidade. Imagine o que se passou na cachola dos viventes naquele momento, não somente a luz, em si, mas as possibilidades que aquela bolota de vidro e sua energia trariam para os dias e vidas de cada pessoa. 

Dias são assim e, como caixinhas de sensações, explodem em infinito em suas 24 horas. Em um 31 de dezembro de 1947, enquanto o paladino da justiça e cowboy Roy Rogers casava-se com Dale Evans, em São Paulo nascia a paladina do rock nacional Rita Lee Jones. Na vitrola, naquele ano, as paradas de sucesso eram de Dick Farney com duas canções, Copacabana e Marina, e também de Luiz Gonzaga, com Asa Branca. Canções eternas, como os dias que as guardam. 

Também o infinito bateu em um 31 de dezembro, em 1978, quando o general Geisel enviava uma emenda para o Congresso pelo fim do Ato Institucional nº 5. O AI-5, que fora criado dez anos antes, em dezembro de 1968, quando o sucesso da época era For Once in My Life, de Stevie Wonder, foi enterrado ao som da dance music, com Night Fever, dos Bee Gees, e Le Freak, de Chic. Já em Pindorama, naquele mesmo 1978, as fitas cassetes giravam loucamente ao som de Sossego, de Tim Maia. Parecia piada pronta.

É JORNALISTA E ESCRITOR, AUTOR DO INFANTIL’ ZIIIM’ E DE’ ENQUANTO ELES CHORAM, EU VENDO LENÇOS’

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.