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Caverna.club: Sempre há o que se esconder

Se pobres mortais têm o que esconder, por que não as fiéis depositárias de relíquias humanas, doutas instituições como bibliotecas e museus?

João Wady Cury, O Estado de S.Paulo

12 de novembro de 2020 | 03h00

Debaixo do tampo de uma mesa encravada na sala ou escondido no fundo falso de uma estante de livros. Quem sabe trancado a sete chaves em um cofre mocozeado no piso do banheiro. Não importa, todos têm algum segredo a preservar, seja um Napoleão de hospício, investido em alto cargo na República, regurgitando bravatas e sandices, seja a mais simples mortal e sua compulsão de escarafunchar os lugares mais recônditos do naso com o dedo indicador. Ou, vá lá, o médio.

Rés confessas

Se pobres mortais têm o que esconder, por que não as fiéis depositárias de relíquias humanas, doutas instituições como bibliotecas e museus? Claro que também essas são rés confessas e guardam um amontoado de obras e peças que ficam geralmente longe dos olhos dos mortais. Não é à toa que ano passado foi lançada uma série em oito episódios, agora na terceira temporada, chamada Museum Secrets. Por enquanto na Amazon norte-americana somente (amzn.to/2K1sdY9). Explora os segredos de museus como Louvre, Metropolitan de Nova York e do próprio Vaticano, valha-nos algum poderoso de plantão.

Gincana semiótica

Talvez fosse preciso lançar mão de um semiólogo e, não bastasse, medievalista, como Umberto Eco, para desvendar os mistérios. Mas este, pobrezinho, já cantou pra subir e, o que sabia se perdeu na volatilidade do plasma. Ou quem sabe algo próximo de um Dan Brown e seu O Código Da Vinci (amzn.to/3peuPSB), com sua gincana para desvendar charadas. Mas ainda assim será pouco.

Erótico, imoral, ofensivo

O honorável público pagante é apartado dessas relíquias por um motivo mundano: obras e escrituras sobre sexo, temas ofensivos e suas variações – o que quer que isso signifique. Tome-se a Biblioteca Nacional (bit.ly/2Ii51o1), no Rio de Janeiro. Há encravado ali um “gabinete secreto”, onde se guarda o que não se pode, não se quer, ou não se deve mostrar, como define a curadora Ana Virginia Pinheiro – inspirada nos gabinetes similares da Biblioteca Nacional de Paris e no Museu Britânico, este chamado private case. A curiosidade fica por conta do Gabinete de Obras Máximas e Singulares, da própria Biblioteca Nacional. Ali está a máscara mortuária do gênio musical Heitor Villa-Lobos. Recado dado. Morte pode, sexo e ofensa não podem dar as caras.

É JORNALISTA E ESCRITOR, AUTOR DO INFANTIL ‘ZIIIM’ E DE ‘ENQUANTO ELES CHORAM, EU VENDO LENÇOS’

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