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Caverna.Club: Desconfinar, desconfiar

Desconfio que, do outro lado do Atlântico, os portugueses conjugam outro verbo: desconfinar

João Wady Cury, O Estado de S.Paulo

20 de maio de 2021 | 03h00

Olho para a rua onde moro há uma semana e desconfio que o único movimento mais provocativo é sonoro: o choro de uma motosserra nervosa de uma empresa de transporte de valores, cortando as árvores a toque de caixa de um imóvel tombado, com o perdão da má palavra. Galhos e troncos derramados na calçada há dois dias é o de menos. Desconfio que, se fosse um simples mortal a passar a faca em uma vegetação ao lado do futuro Parque Augusta, certamente seria confinado a ver o sol nascer quadrado. Enquanto isso, desconfio que, do outro lado do Atlântico, os portugueses conjugam outro verbo: desconfinar.



 

MELÔ DO DESCONFIADO

Desconfinar é o verbo do verão na Europa e nos Estados Unidos até segunda ordem. Bonito isso, repeat after me. Eu desconfino, tu desconfinas, ele desconfina… O Dicionário da Língua Portuguesa, da Porto Editora, diz que se trata de verbo transitivo e intransitivo. Já o nosso Dicionário Houaiss  aponta verbo intransitivo. Quando se clica na aba para ver a conjugação, o espaço está em branco. Uma miséria, nem conjugar o verbo desconfinar é possível no Brasil. 

Primo distante do verbo do além-mar, o único que nos cabe no momento é desconfiar. Desconfiamos que a coisa irá longe. Desconfiamos que mais corpos se amontoarão. Desconfiamos que a marca dos 500 mil mortos já está fácil de ser ultrapassada e, em 1º de setembro, como aponta o estudo da Universidade de Washington, chegaremos a 832 mil humanos mortos no Brasil - o pior cenário aponta 970 mil mortes na mesma data, mas sejamos pacatos. Claro, se este governo inepto e dotado de confusão mental continuar no imobilismo. Muito verbo, pouca ação, coisa de quem não está acostumado a trabalhar. Só a fazer fumaça.

Senão, vejamos. Também a revista New Yorker, como os portugueses, traduz o espírito do momento nos Estados Unidos e surfa no desconfinamento. A capa da semana é a ilustração de uma família se preparando para sair da clausura de um quarto escuro; mira um infinito de céu azul com a cidade ao fundo. A obra foi realizada pelo artista turco Gürbüz Doan Ekiolu. “Aventurar-se!” é o convite.

Aqui temos o contrário. Burla-se a fiscalização. Engana-se o próximo. Seriam espertolinos de primeira hora? Desconfio que não, tapados enrustidos. Porque até para ser enrustido é preciso ser tapado. 

Desconfio que tão cedo não desconfinaremos. Desconfio que se enganar dando conta que tudo está normal é coisa de desconfinado mental. Assim como quem usa motosserra em árvore boa.

 

É JORNALISTA E ESCRITOR, AUTOR DO INFANTIL ‘ZIIIM’ E DE ‘ENQUANTO ELES CHORAM, EU VENDO LENÇOS’

 

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