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Caverna.club: De alfaiate a gênio da atuação

Discreto em público e assumidamente caseiro, Leonardo Villar ficou conhecido das novas gerações por seu trabalho em novelas, mas era o inverso do mundo da TV

João Wady Cury, O Estado de S.Paulo

09 de julho de 2020 | 03h00

Difícil mensurar o que artistas, depois de mortos, podem representar no futuro para a arte e para o mundo que não os viu. Para as futuras gerações de artistas, uma foto velha de um passado abissal. Mas não Leonardo Villar (1923-2020). Discreto em público e assumidamente caseiro, Villar ficou conhecido das novas gerações por seu trabalho em novelas, mas era o inverso do mundo da TV. Um dos atores mais talentosos de sua geração, ele foi o TBC, parceiro de Cacilda Becker e Sérgio Cardoso, foi Eddie Carbone, em Panorama Visto da Ponte, e um gênio de atuação do cinema nacional. 

Rosita perdeu

Genial, sim. Alfaiate desde os 10 anos, na sua Piracicaba, até nas mais tradicionais casas em São Paulo como Madame Rosita e Vogue, Leonardo Villar viu um dia cruzar seu caminho uma reportagem no Estadão sobre uma escola que iniciava as atividades em São Paulo. Passou no exame de atuação para integrar a primeira turma da Escola de Arte Dramática (EAD) com a banca formada pelo criador da escola, Alfredo Mesquita, Cacilda Becker e o crítico Décio de Almeida Prado. Detalhe: nunca entrara em um teatro. Subiu ao palco e perdeu a namorada, Isabel, com quem iria se casar. É uma pérola seu depoimento à atriz Nydia Licia no livro Garra e Paixão. Baixe gratuitamente aqui: bit.ly/2BJvxDh

Anselmo ganhou

Villar protagonizava O Pagador de Promessas, de Dias Gomes, no TBC, quando notou que o diretor de cinema Anselmo Duarte assistia à peça todos os dias. Iria fazer uma versão da peça para cinema. Mas Duarte resistia ao ator por considerá-lo gordo e com cara de toureiro espanhol. Villar perdeu 12 quilos e assumiu a personagem Zé do Burro. Mas sempre confidenciou: no fundo, sua melhor atuação no cinema fora em A Hora e a Vez de Augusto Matraga, de Roberto Santos. Vale assistir ao documentário Anselmo Duarte – Uma História de Ouro, com depoimentos do próprio Anselmo e de Leo Villar. No teatro, Panorama Visto da Ponte, de Arthur Miller, tinha sido sua atuação mais arrasadora – não à toa recebeu todos os prêmios de melhor ator da temporada tanto em São Paulo como no Rio. youtu.be/rdxJorO53U0

Todos ganhamos

No fim de 2019 saí à procura de Leo Villar. Queria entrevistá-lo para o Caderno 2 sobre atuação e, claro, sua carreira. Conversei com alguns artistas que o conheciam e depois de uma dúzia de ligações soube que o ator voltara a morar no bairro da Consolação, onde estão várias das tapeçarias que produziu. Nada. Soube que, por conta da idade, mudara para a casa de um de seus sobrinhos – ele dizia que não teve filhos, mas seus 35 sobrinhos e os 70 sobrinhos-netos eram como se fossem os filhos que não teve. Liguei três vezes e para meu infortúnio (e sorte dele), em todas dormia. Não conseguimos nos encontrar, melhor, nos desencontramos. Veio a peste e hoje cá estamos, às vésperas de seus 97 anos, no próximo 25 de julho. Silenciosamente chegou e do mesmo modo partiu.

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