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Caverna.club: China sob o olhar de Antonioni

O cineasta italiano aceitou o convite de Mao Tsé-Tung, premiê chinês, para fazer um documentário para mostrar ao mundo o resultado de sua reforma do estado chinês; Mao achou a fita absurda e subiu nas tamancas

João Wady Cury, O Estado de S.Paulo

21 de maio de 2020 | 03h00

O cineasta italiano Michelangelo Antonioni já era popstar do mundo do cinema quando decidiu aceitar o convite de Mao Tsé-Tung, premiê chinês, para fazer um documentário para mostrar ao mundo o resultado de sua reforma do estado chinês. 

Corria o ano de 1972, o Brasil, ufanista de dar dó, comemorava o sesquicentenário da Independência, mas o mundo estava de olho em Mao e sua Revolução Cultural. Antonioni topou e durante cinco semanas rodou o documentário Chung Kuo - Cina, para infelicidade do seu anfitrião. Mao achou a fita absurda e subiu nas tamancas.

 

 

MAO NAS TAMANCAS

Se por um lado o premiê chinês tinha na cachola a ideia de ganhar a simpatia do mundo contratando um dos mais badalados cineasta do momento para mostrar sua tão querida China em um documentário chapa branca e efusivamente elogioso, por outro essa era uma ideia de jerico, das piores que Mao poderia ter tido. Na verdade, faltou combinarem as intenções de cada lado - Mao possivelmente estava empolgado porque meses antes recebera a visita histórica do então presidente norte-americano Richard Nixon, em um sinal de que seu país estava se abrindo para o mundo. O que o chinês não contava é que, naquela altura do campeonato, Michelangelo já era Antonioni, sessentinha nas costas, prêmios em Cannes e Veneza. Pois, claro, Antonioni decidiu ser Antonioni. Fez seu doc de forma crítica, longas tomadas em pouco mais de três horas de filme, como se pode ver nos três links, o segundo deles aqui:

 

 

UMBIGO DO MUNDO

Antonioni começou a vida no cinema fazendo documentários, como o primeirão deles, O Povo do Vale do Pó. Tinha intimidade com o traçado. No caso de Chung Kuo - Cina, dividiu a obra em três partes. Detalhe: a expressão Chung Kuo remete à China como centro do mundo. Aqui a terceira parte do doc: 

 


 

MUNDO DE MÁGOAS

No fim das contas saiu pernada para todos os lados e a infelicidade tomou a contenda. Antonioni foi massacrado pelo próprio Mao, pelo Partido Comunista Chinês e, para piorar, em sua casa, pelo Partido Comunista Italiano. Como resposta, furiosa, o cineasta disse de forma curta e grossa que o filme não era sobre a China e sim sobre o povo chinês. Bingo.

 

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