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Caverna.club: Bicho-papão que habita em nós

São tempos de medo. Talvez por isso seja fácil entender como boa parte da obra de Paula Rego é fundada no temor, muitas vezes invisível

João Wady Cury, O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2020 | 03h00

O quarto em um manto de sombras, o teto que se move sem explicação, um barulho inusual em algum canto. Transcendências da imaginação, fazem o cerebelo girar nervoso em torno do próprio eixo. Um bicho-papão no seu imaginário, ogro que come criancinhas. Ainda que elas mereçam, são crianças. Mas o medo se perpetua e arrasta adultos pela mão a vida toda. Mora em algum canto do corpo, da memória. O que importa é gente e o que fazem umas às outras. Mesmo quando querem te papar. 

MEDOS IMPRESSOS 

São tempos de medo. Talvez por isso seja fácil entender como boa parte da obra de Paula Rego, lisboeta de nascimento, mas fincada em Londres há quase 50 anos, é fundada no temor, muitas vezes invisível. Sim, deliciosamente no medo. Personagens como o bicho-papão em várias de suas aparências pululam em suas obras e acabam ali libertos. “O medo passa para o quadro”, diz a artista visual Paula Rego no documentário dirigido pelo filho, Nick Willing (vimeo.com/ondemand/regoportugues). Paula tem 35 quadros e desenhos no British Museum, mas é em Cascais que está sua casa artística, literalmente. 

SOMENTE HISTÓRIAS 

A Casa de Histórias Paula Rego (casadashistoriaspaularego.com) é um projeto de duas pirâmides vermelhas, de autoria do arquiteto Eduardo Souto de Moura, e uma viagem à parte. Combina traços à narrativa da artista em suas obras, o cotidiano de uma casa, as relações da filha com o pai, a mãe, família. “Estou sempre a contar histórias nos meus quadros, mesmo que estas mudem enquanto o estou a fazer. E às vezes só descubro a história depois de ter acabado. As histórias têm pessoas lá dentro, por isso eu desenho pessoas a fazer coisas umas às outras”, disse há dois anos em uma entrevista.

PINCEL INDOMÁVEL 

Paula Rego é cativante, conquista de longe e de perto sem medida, nem controle. Como a diretora e atriz argentina Malú Bazán, que hoje vive um processo de investigação artística sobre a obra de Paula; empresta seu corpo para reproduzir em fotografias as imagens dos quadros da artista portuguesa. Ou, de perto, muito perto, como Jorge Jesus, técnico do seu time do coração, o Benfica. A relação de carinho pode ser traduzida pelo olhar que trocam no tête-à-tête em uma exposição há alguns anos. É poesia pura. (youtu.be/CyWK2H-JWso

 

É JORNALISTA E ESCRITOR, AUTOR DO INFANTIL ‘ZIIIM’ E DE ‘ENQUANTO ELES CHORAM, EU VENDO LENÇOS’

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