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Caverna.Club: A mãe de todas as vacas

'A Vaca Voadora', hoje na 32ª edição, formou diversas gerações de humanos com as aventuras do garoto Lalau e da vaca que tomava uma poção mágica e passou a cruzar o céu em voo rasante

João Wady Cury, O Estado de S.Paulo

13 de maio de 2021 | 03h00

Miúda e espoleta, a escritora Edy Lima era precedida por sua gargalhada como se fosse o abre-alas de sua presença no recinto. Gaúcha de Bagé e também carioca e paulistana por adoção, Edy Maria Dutra da Costa Lima cantou para subir no primeiro dia do mês aos 96, um sabadão desenxabido, mas deixou um legado para o mundo maior do que sua obra mais conhecida, sobre uma vaca que voava. Também foi uma das musas de Mario Quintana, que via seu coração derreter em forma de poemas ao ver o pitéu saltitante cruzar seus passos. Edy casou-se com um amigo de Quintana e tudo ficou bem. Dizem.


 

NEM SÓ DE VACAS 

A Vaca Voadora, hoje na 32ª edição, formou diversas gerações de humanos com as aventuras do garoto Lalau e da vaca que tomava uma poção mágica e passou a cruzar o céu em voo rasante. Começo dos anos 70, os hippies campeavam com seus ácidos lisérgicos e por que a vaca não entraria nessa? Mas os anos 1970, no Brasil, também eram do general Médici e da repressão militar e Edy Lima escreveu A Vaca Proibida e A Vaca Invisível. Podem ser coincidências de um mundo bizarro e talvez esses sejam somente livros infantis, doces e meigos. Vá saber. 

Antes de suas vacas, Edy passara uma temporada no Teatro de Arena, em São Paulo, para acompanhar a montagem de sua peça A Farsa da Esposa Perfeita. Era outubro de 1959 e a direção, do próprio Augusto Boal – a crítica de Sábato Magaldi no Estadão antevia o futuro da moça (Veja aqui). Em seguida, ela adaptou para o palco o livro Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus. Direção de Amir Haddad, Ruth de Souza (100 anos de nascimento, ontem) e Célia Biar em cena. Na televisão, foi autora, com Carlos Lombardi e Ney Marcondes, de Como Salvar Meu Casamento, em 1979, chamada também de “a novela que não acabou”. A Tupi fechou as portas antes de a trama terminar e largou órfãs a trilha de abertura, Cotidiano, de Chico Buarque, a atriz Nicete Bruno, protagonista, e frases como: “No casamento, a rotina é pior que uma amante”. 

O sucesso do primeiro livro da Vaca Voadora levou à sequência de outros seis títulos. Editores arriscam-se a dizer que as sete obras venderam mais de um milhão de exemplares. Não há números precisos. Talvez seja bem mais, apesar de a gaúcha dizer que nunca enricou com seus livros – veja a conversa com Antonio Abujamra em duas partes, e aqui. É nessa entrevista que Abujamra pergunta: “Por que investir no sonho é fundamental?”. E Edy sapeca: “Porque é a única coisa que a gente tem”. 

 

É JORNALISTA E ESCRITOR, AUTOR DO INFANTIL ‘ZIIIM’ E DE ‘ENQUANTO ELES CHORAM, EU VENDO LENÇOS

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