'Cavaleiro Solitário' aposta na paródia e na ação

Filme de Gore Verbinski é mais uma tentativa de revitalização de um gênero que marcou época no cinema norte-americano

LUIZ ZANIN ORICCHIO, O Estado de S.Paulo

12 de julho de 2013 | 02h12

Em O Cavaleiro Solitário, a história é contada por um velho índio, Tonto, sobre os bastidores que transformaram o homem da lei, John Reid, em uma lenda do Oeste.

O filme de Gore Verbinski é mais uma tentativa de revitalização de um gênero que marcou época no cinema norte-americano e criou a própria mitologia com Ford, Hawks, Sturges e outros. O western, o mito fundador da nação norte-americana, conforme definiu o crítico André Bazin em ensaio.

Acontece que também certas mitologia são datadas. Podem ressurgir, às vezes com grandeza efêmera, sob a forma crepuscular, como em Os Imperdoáveis, de Clint Eastwood. Ou ressurgir sob a capa da paródia, como neste Cavaleiro Solitário.

Aqui, a paródia assume a figura de Johnny Depp com sua veia cômica e levemente autoirônica. Depp é, na verdade, o que o filme tem de melhor. À sua maneira, consegue funcionar no mais banal dos blockbusters, rindo de si mesmo (e embolsando cachês milionários, claro, e transmitindo a mensagem subliminar de que nada daquilo é para ser levado muito a sério).

Desse modo, Depp retoma a tradição de humor presente em muitos westerns (sempre há humor em Ford, por exemplo), não apenas com o fito de aliviar a tensão, mas de colocar em crise a própria narrativa. É quando, por exemplo, Reid (Armie Hammer), vê-se escolhido pelo próprio cavalo branco de Tonto para ser o guerreiro eleito. A cena é engraçada.

Há outras assim e que poderiam ter feito de O Cavaleiro Solitário um filme mais agradável de se ver, não fosse a tendência dos estúdios de empanturrar de ação todos os seus produtos. Em meio à ação excessiva (que, pelo próprio excesso, anula seus efeitos), as boas ideias se diluem. E, como os filmes de grandes orçamentos se transformaram em montanhas-russas, não se vê qual possa ser o limite da adrenalina almejada no público. É o limite dialético dos atuais blockbusters.

Aliás, esse fenômeno da falta de ideias e da sobrecarga de efeitos especiais afeta ainda mais o outro blockbuster que também entra em cartaz - O Homem de Aço. Se Cavaleiro Solitário pelo menos tem humor, essa história dos primórdios do Super-homem carrega o peso adicional da extrema seriedade. Com núcleo mínimo de ideias, as grandes produções apostam todas as suas fichas na ação frenética e turbinada pelos efeitos especiais. Falta de imaginação tamanha pode até enganar os ingênuos, mas desperta preocupação na própria indústria.

Recentemente a ex-executiva da Fox e da Paramount, Lynda Obst, discutiu em seu livro Sleepless in Hollywood os impasses dessa indústria que acredita mais na tecnologia do que na criatividade e na imaginação. Mesmo Spielberg e Lucas, responsáveis no final da década de 1970 pela reorientação de Hollywood aos efeitos especiais, andam ressabiados. A hostilidade às ideias é total e os roteiristas mais criativos migraram para as TVs. Mas o dinheiro continua a entrar.

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