Fabio Motta/ AE
Fabio Motta/ AE

Cauã Reymond e Murilo Benício vivem jogadores de futebol em 'Avenida Brasil'

Nova novela das 9 substituirá 'Fina Estampa' com universo pop alinhado ao gosto da classe C

ROBERTA PENNAFORT / RIO, O Estado de S.Paulo

13 de março de 2012 | 03h11

Quem era noveleiro nos anos 80 deve se lembrar de Mário Gomes como o explosivo jogador de futebol Luca, de Vereda Tropical. Os mais velhos voltam até o ídolo do Flamengo Duda, personagem de Cláudio Marzo em Irmãos Coragem, no remake de 1995 ressuscitado por Marcos Winter. Avenida Brasil, a sucessora de Fina Estampa no horário mais nobre da TV Globo (21 horas), que estreia daqui a duas segundas-feiras, trará dois novos craques para o imaginário do público brasileiro: Tufão, vivido por Murilo Benício, e Jorginho, por Cauã Reymond.

 

Dois, não; um craque. Tufão é puro carisma e habilidade. Uma estrela flamenguista, que se aposenta ainda nos dias de glória, como campeão do futebol carioca, depois de ter jogado na Europa e conquistado sua fortuna. Já Jorginho, seu filho adotivo, não é tão bom das pernas. Seu lugar é o banco de reserva do Divino Futebol Clube, o time da terceira divisão que revelara Tufão.

 

Ele vive as angústias do filho que tenta se equiparar ao pai-herói, as frustrações do jogador que não deslancha. "São tantos problemas na cabeça que ele não consegue controlar os pés. Jorginho não segue o estereótipo dos jogadores, não é uma pessoa solar", conta Cauã.

 

Divino é o orgulho do bairro homônimo em que eles vivem, localidade fictícia do subúrbio do Rio, à qual se chega pela Avenida Brasil. É a classe C no ar. É a Globo na batalha pela recuperação da audiência perdida (22% em seis anos, mais para a TV paga do que para a concorrência direta).

 

O autor, João Emanuel Carneiro, está morando em Copacabana e vem do Leblon, bem distante desse universo. Inventou o seu subúrbio, com referências como o baile de charme bombado, o salão de cabeleireiro superpopular e movimentado, onde as fofocas e os barracos se dão.

 

Uma das âncoras do núcleo é Heloisa Périssé, a dona do salão, ex-namorada de Tufão. "Ela desenvolve uma fórmula de alisamento e fica rica, mas não quer abrir mão das origens. O público vai se identificar diretamente com ela." Olenka (Fabíula Nascimento, em sua primeira novela) é sua escudeira. "Faço uma cabeleireira, uma mulher muito popular, trabalhadora, brasileira, suburbana, barraqueira, dedicada à vida e feliz."

 

As gravações começaram há cinco meses, e movimentaram ruas dos bairros do Grajaú e de Guadalupe, na zona norte do Rio. As chamadas, exibidas desde a semana passada, focam as personagens de Débora Falabella e Adriana Esteves, que, com os dois atores, formam o quarteto central da novela.

 

Vingança. Débora é Nina, órfã de infância duríssima que é adotada por uma família rica argentina (um vinhedo de Mendoza serviu de locação). Adulta, ela volta às origens para ver Carminha (Adriana) pagar pelo mal que lhe fez. É em torno dessa vingança que gira a novela.

 

Carminha é a madrasta má, casada com seu bom pai, Tony Ramos, que faz participação especial apenas, morrendo no início da trama. Carminha é tão má que arranca com prazer a cabeça de sua boneca preferida, e ainda é capaz de abandonar Nina ao próprio azar num lixão. Mas para o novo marido, Tufão, ela se faz de boazinha.

 

Carminha é candidata a nova Flora, a psicopata dissimulada de A Favorita. A novela, exibida há três anos, com audiência irregular, foi a primeira incursão no horário de Carneiro. O autor já contou que partiu de Flora para construir Nina, sua anti-heroína: mulher sofrida, para quem os fins justificarão os meios.

 

"Até onde você iria por justiça?", as chamadas provocam. Nina vai longe: consegue um emprego de empregada na casa de Carminha, para, de perto, arruiná-la. A direção geral é de Ricardo Waddington, o mesmo de A Favorita.

 

No Projac, foi reproduzido um lixão, cenário da penúria da atriz mirim Mel Maia, Débora criança. Também foi construída uma casa-palácio para Tufão, digna de um Ronaldinho Gaúcho. Na casa mora toda a família, que o ex-jogador sustenta.

 

As cenas futebolísticas variam de cenário: a consagração de Tufão, gravada em dezembro, foi no campo de um estádio em Uberlândia, com dois mil figurantes. Efeitos de computador que consumiram três meses de trabalho da equipe técnica transportarão o espectador para o Maracanã dos anos 90 (o estádio está em obras, por isso não foi utilizado). Jorginho, que nunca chegará ao grande estádio, usa o campo do centro de treinamento de Zico.

 

No domingo passado, dia de Fla x Flu, uma ação promocional da Globo levou Murilo (botafoguense que se vestiu de flamenguista em nome da paz entre as torcidas) e Cauã (flamenguista a empunhar a bandeira tricolor) ao gramado do Engenhão, no Rio. Os dois sofrem pelos personagens. Murilo perdeu sete quilos de Força Tarefa para cá, e não se sente satisfeito. "Falei pro meu personal: 'Quero ficar palito'. E ele logo disse que eu não ia conseguir, não tenho estrutura. Assim como não tenho condições de ficar com o preparo físico dos garotos de 20 anos com quem treinei. Eu tenho 40. Tentei, mas vai ter que ter uma licença poética."

 

Cauã, por sua vez, muito empenhado na imersão do universo de jogador suburbano, passou a ouvir funk e pagode, gêneros de que não gostava. Furou as duas orelhas e meteu brincos grandes, o que causou inflamações.

 

Mesmo limitado por um problema nos quadris, já operado (seu caso é como o do ex-tenista Gustavo Kuerten), malhou pesado as pernas finas de surfista, treinou futebol por dois meses e estudou muito a retórica dos jogadores em vídeos do YouTube. A habilidade, ele diz, melhorou um pouco. "Eu era horrível, passei a ser só ruim. No meu primeiro dia, tropecei e tomei o maior tombão."

 

A novela tem duas fases: na primeira, situada em 1999, Tufão está encerrando a carreira e Jorginho e Nina são crianças, amigos que conviviam no lixão. Eles vão se reencontrar em 2012.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.