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Catatau, a volta do livro mutante

Lançada em 1975, a obra do curitibano Paulo Leminski, fora de catálogo há muitos anos, é finalmente recuperada

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

22 de outubro de 2010 | 00h00

Ao ser lançado, em 1975, o livro Catatau, do curitibano Paulo Leminski (1944-1989), foi saudado em ensaios como um novo Finnegans Wake. Com justa razão. Além de tradutor de Joyce, Leminski, a exemplo do irlandês, fez uso irrestrito de citações míticas e eruditas, exigindo do leitor um repertório literário bem acima da média. O tempo só fez reforçar a importância desse livro, considerado um divisor de águas na literatura brasileira, uma "aventura textual" em que a lógica cartesiana vai para o brejo no pântano tropical. Bestiário que pode - e deve- ser confundido com ensaio filosófico, poesia concreta e revisão histórica do Brasil, Catatau ganha nova edição da Iluminuras, após anos fora de catálogo. E não uma edição qualquer: seu apêndice traz parte da fortuna crítica de Catatau com excertos de ensaios assinados por Haroldo de Campos, Flora Sussekind, Leo Gilson Ribeiro e Antonio Risério.

Catatau é a história de uma espera, a do filósofo francês René Descartes (1596-1650) - chamado, no livro, de Cartésio - pelo polonês Krzysztof Arciszewski (1592-1656), general que chefiou as forças militares holandesas no Brasil. Leminski imaginou o que aconteceria se o fundador da filosofia moderna tivesse desembarcado no Brasil com os holandeses de Maurício de Nassau - ele, de fato, chegou a se alistar em seu exército, mas preferiu acabar seus dias dando aulas de filosofia para a rainha Cristina da Suécia. Morreu de pneumonia. Em Catatau, ele fuma uma erva que lhe consome a razão. Em seu delírio, vê monstros que o leitor da época poderia facilmente associar aos gênios do mal dominantes na ditadura (1975, ano da publicação do livro, foi também o da morte do jornalista Vladimir Herzog).

Como Catatau é um texto mutante, adaptando-se a todas as épocas, ele passa de exercício literário que reinventa a história brasileira a uma representação metafórica do choque europeu com as feras dos trópicos, desafiadoras da lógica - principalmente a de Descartes. No livro, uma entidade chamada Occam, que desarranja o texto do autor, coloca igualmente por terra o edifício filosófico do francês, desordenando seus conceitos. Perdido num labirinto selvagem, entre bestas e plantas antediluvianas, ele duvida se realmente pensa e logo existe - ao topar com um extravagante tamanduá que suga o seu pensar.

Se o Brasil fosse holandês, conclui Leminski, "ninguém mais entendia batavina", descobrindo finalmente por que a ave daqui é o papagaio, o repetidor assassino da lógica. Descartes diz o mesmo em Catatau: "Me seguro aqui para não cair. Bom de pisar é pedra. O resto é queda" na terra "descomprometida".

FORTUNA CRÍTICA

Haroldo de Campos

Poeta

"As influências nessa "Leminskíada" são muitas. Como Joyce. Mais que o do Ulisses, o do Finnegans Wake, ou Finicius Revém..."

Antonio Risério

Poeta

"Catatau ocupa um lugar raro na prosa literária brasileira. O que pintou depois das aventuras textuais de Guimarães Rosa? Quase nada."

Augusto de Campos

Poeta

"Aplica a linguagem do Finnegans Wake numa fantasia borgiana: racionalismo dissolve o delírio vocabular do trópico canabis-canibal."

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