Catastrofismo

Lembra o bug do milênio? Era apenas uma das catástrofes que nos esperavam no começo do século 21, quando muita gente se convenceu de que o mundo ia acabar. Não aconteceu nada do previsto, o que não impediu a volta do catastrofismo. Agora estão dizendo que 2012 será o último ano da Terra. Estaria no calendário dos Maias, que viram nosso destino nas estrelas.

LUIS FERNANDO VERISSIMO, O Estado de S.Paulo

29 de abril de 2012 | 07h38

A aproximação do milênio, que levou tantos ao desespero ou ao misticismo, me levou a ler sobre o tempo e sua história, o que não deixou de ser uma forma organizada de pânico. O resultado é que estou pronto para voltar ao assunto, nem que seja para não desperdiçar a erudição acumulada.

Desde que começou a fazer calendários o homem precisou sincronizar os ciclos lunares com os anos solares e organizar o resultado num método razoavelmente uniforme de medir o tempo. O tempo natural e o tempo padronizado nunca coincidiam, os números nunca fechavam. A solução era abandonar qualquer pretensão a um calendário fixo e simétrico e tirar ou botar dias arbitrariamente, para diminuir os desencontros entre o tempo real e sua aferição humana.

Muitas fórmulas foram tentadas, mas no ano 150 a.C. os romanos inventaram um mês de 22 ou 23 dias, chamado Mercedonius, que deveria ser inserido depois do dia 23 de fevereiro em anos intercalados - ou sempre que fosse preciso. No velho calendário romano, 23 de fevereiro era último dia do ano e dia do Festival da Terminália, quando se faziam sacrifícios a Terminus, deus dos limites.

Quem determinava se era preciso ou não acrescentar o Mercedonius no calendário e tornar o ano um mês mais longo eram os pontífices, os romanos encarregados de administrar os cultos do Estado. E passou a ser comum os pontífices só alongarem os anos em que seus amigos estavam no poder. Com um ou mais Mercedonius, estendiam o mandato de seus preferidos sem necessidade de emendas de reeleição ou compra de votos. O que só mostra como é antigo o hábito do patriciado de proteger os seus. Quem acabou com o costume foi, surpreendentemente, César, quando fez sua própria reforma do calendário romano. Mas o César daquele tempo era Júlio, o original.

Tudo isto para mostrar como é complicado saber ou prever qualquer coisa baseada em calendários e na disposição dos astros já que tanto os calendários quanto os mapa astrais foram arbitrariamente modificados, pelo homem, através da história.

Mas se a humanidade ainda não absorveu bem o que a teoria heliocêntrica de Copérnico significou para a astrologia, não será o simples bom senso que irá acalmá-la.

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