Catálogo revisita obra de Lasar Segall

A primeira exposição itinerante deLasar Segall pela América Latina, que já foi vista por milharesde mexicanos entre os meses de março e junho e que atualmente éa atração do Museu de Arte Latino-Americano de Buenos Aires(Malba) - onde fica até 15 de setembro -, não é apenas umaoportunidade de divulgar nos nossos vizinhos latinos a obradeste judeu russo que acabou atracando em terras brasileiras etransformando o País em em sua casa por adoção e também numimportante substrato de sua obra. Como confirma o belo catálogoem espanhol, editado especialmente para essa mostra, essasexposições temporárias são uma ótima oportunidade de revisitar avida e a obra do artista, estimulando e abrindo novos ângulos dereflexão.A obra, que pode ser adquirida na sede do Museu LasarSegall na Vila Mariana por R$ 50, é ricamente ilustrada, comimagens dos 140 trabalhos selecionados para a exposição (74pinturas sobre tela e papel, 40 gravuras e 26 desenhos), desdeas primeiras obras, ainda da fase alemã, tipicamenteexpressionista, até as obras maduras, em que se vê uma profundainfluência da paisagem e das cores brasileiras. Mas acima detudo reúne uma seleção de textos analíticos que apresentamvários aspectos interessantes da obra de Segall.Além da apresentação feita por Vera d´Horta,pesquisadora do Museu que assina a curadoria da exposição, quetraça um resumo bastante claro da evolução da obra do artista,das clássicas apresentações dos diretores das instituiçõesorganizadores das mostras, a publicação reúne uma série depequenos ensaios sobre determinados capítulos da produção deSegall e textos de alguns pesquisadores brasileiros sobredeterminados aspectos de sua produção. Além de Vera d´Horta,assinam os textos os críticos Ivo Mesquita, Irma Arestizábal eJorge Schwartz. Este último assina dois trabalhos, um sobre arelação de Segall com a cultura e a imagem do negro e outrosobre a relação do pintor com o cenário latino-americano, umarelação de ausência um tanto quanto inexplicável.Em meio a interessantes análises de vários aspectos daobra de Segall, como sua relação com o expressionismo alemão, ainfluência que o construtivismo de Cézanne exerceu sobre suaobra, a importância da origem russa e judáica, assim como aimportância de seu diálogo com os modernistas para explicar suaprodução brasileira - questões recorrentemente analisadas nosestudos sobre Segall -, esse catálogo parece avançar de maneirainteressante na discussão sobre a brasilidade da obra do pintor.Talvez porque, ao ser exibido pela primeira vez ao públicolatino-americano, Lasar Segall possa ser visto como mais umexemplo de uma questão bem central da arte produzida nessespaíses subdesenvolvidos, de colonização européia.Como resume Vera d´Horta, a questão que se coloca é"saber se o artista imigrante que se fixou em terras docontinente americano se converteu, em cada país de adoção, em umartista nacional, menos no que se refere com o sentido estritode nacionalidade do que com a compreensão de um processo deintegração com a cultura de um país".E quando se fala em integração, é inevitável lembrar aprofunda interação entre Lasar Segall e o Brasil. O que ele viupor aqui mudou profundamente sua pintura, assim como o diálogocom os artistas e intelectuais locais modificaram sua forma detraduzir o mundo em imagens. Um exemplo interessante destacadono livro: a suavidade que as cenas de maternidade - inicialmentetristes e opressivas - foram ganhando depois que ele veio aoBrasil. Da mesma maneira, ele ajudou a cunhar uma imagem doBrasil, sendo impossível pensar o País sem ter em conta imagensdefinitivas como Paisagem Brasileira e Bananal. E não se trata apenas da importância da fase "brasileira" de Segall, mastambém das raízes que deixou e de sua importância para asgerações futuras. Como escreve Ivo Mesquita, lembrando que aobra do artista continua sendo revisitada e alimentando váriosartistas contemporâneos mais de 50 anos após sua morte, ahistória se faz a partir de "um patrimônio conquistado queinforma e oferece subsídio para o presente".

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