Ernesto Rodrigues/AE
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Catálogo reúne preciosidades

Desde 1945, pesquisadores mapeiam anualmente a produção de livros dedicados ao público jovem

Edison Veiga, O Estado de S.Paulo

17 de outubro de 2010 | 01h00

Para as formiguinhas que trabalham na Biblioteca Monteiro Lobato - a mais antiga infanto-juvenil do País -, cada página é um torrão de açúcar, cada livro é uma vida inteira de sonhos. E não são poucas páginas, não são poucos livros. Cada membro da equipe dos resenhistas profissionais que lá atuam devora 80 páginas por dia - para dar conta de toda a produção brasileira do segmento, que varia de 800 a mil títulos por ano.

Estamos falando de um trabalho que é realizado pela biblioteca desde 1945 - primeiro como suplemento de uma revista literária, depois, em 1953, de forma independente. A ideia era - e, de certa forma, ainda é - mapear toda a produção literária infanto-juvenil do País. Não só mapear, mas balizar o que é bom, o que não passa de mediocridade, o que nem deveria ter sido publicado. Ideia do escritor Mario de Andrade (1893-1945), quando comandava o então Departamento de Cultura. Posta em prática pela professora Lenyra Fraccaroli, então chefe da Divisão de Bibliotecas Infantis da Prefeitura de São Paulo.

De lá para cá, com algumas interrupções, anualmente é lançado o livro Bibliografia Brasileira de Literatura Infantil e Juvenil, com pequenas resenhas críticas de toda a produção do setor. "É uma tentativa de acompanhar e documentar a produção", conta a pesquisadora Silvia Oberg que, desde 1982, quando começou a trabalhar na Monteiro Lobato, coordena o trabalho. "Quando aqui cheguei, a biblioteca havia parado de fazer a leitura crítica por anos. É uma perda histórica que jamais vamos conseguir recuperar." Os problemas ainda não foram totalmente resolvidos. Para se ter uma ideia, a última edição publicada do anuário data de 2005. O de 2006, pronto, deve ser lançado em novembro, graças a uma parceria com a Imprensa Oficial - e o apoio da editora Cosac Naify.

O principal problema é a equipe técnica. A única contratada de forma fixa é a própria Silvia. Os outros três membros do time são prestadores de serviço, por tempo determinado. Cada renovação de contrato pode levar meses, período em que as estantes ficam acumuladas de novos títulos. "A burocracia impede a continuidade. Por isso, ainda estamos lendo os livros publicados em 2007. O certo seria acompanharmos a produção do ano atual", diz Silvia.

Público. Para escritores e editores infanto-juvenis, a importância da Bibliografia é enorme. "O anuário se tornou uma referência na hora de as escolas decidirem quais livros adotar", diz Patty Pachas, diretora da editora Panda Books. "É um termômetro da produção nacional. Serve de referência para as editoras, para professores, pais e pesquisadores da área", define Amir Piedade, editor de Literatura Infantil e Juvenil da Cortez. A distribuição da Bibliografia, sempre de forma gratuita, é direcionada a bibliotecas, escolas e editoras de livros. "Nosso sonho é dispor isso na internet. Mas, infelizmente, não temos equipe técnica para isso", comenta Silvia.

O cartunista e escritor Ziraldo, autor de best-sellers infantis, é outro entusiasta do projeto mantido pela Monteiro Lobato. Em 2004, ele até cedeu gentilmente os direitos de uso da imagem do saci - com seus traços -, que se tornou um ícone para mostrar os livros mais bem qualificados pela Bibliografia. "Todo o esforço que a gente puder fazer para transformar o Brasil em um País de leitores é urgente", afirma. "Por isso estou sempre engajado nesse universo da leitura."

A isenção e qualidade do trabalho dos resenhistas é o ponto alto para a editora de livros infanto-juvenis da Cosac Naify, Isabel Lopes Coelho. "Eles realizam um exercício de concisão muito eficiente em seus textos, abordando todos os aspectos da obra, como texto, ilustrações e até mesmo o formato", pontua. "Além disso, essas resenhas ajudam na pesquisa universitária sobre literatura infanto-juvenil, na consulta feita por professores e bibliotecários, além ser uma obra de referência sobre a produção editorial brasileira."

Os livros chegam à Monteiro Lobato graças a doações das editoras. Já é praxe: tão logo um infanto-juvenil é publicado, um exemplar é destinado à Monteiro Lobato. "Mas elas agem com muita ética", conta Silvia. "Nunca sofremos nenhum tipo de pressão com o intuito de favorecimento." Esse fluxo de livros novos permite que a biblioteca mantenha um rico acervo - precioso para os pesquisadores do tema - de 70 mil volumes. Mas, diante de tantas páginas já folheadas e resenhadas, Silvia só consegue pensar no próximo livro - que está lá, novinho, na estante, à espera de uma leitura crítica. E sonha com um dia em que terá equipe suficiente para resenhar a produção do ano corrente. E publicar na internet.

Repercussão

ISABEL LOPES COELHO

EDITORA DA COSAC NAIFY

"O anuário é sempre muito bem-vindo para termos uma referência da quantidade de livros publicados naquele ano, os novos autores e aqueles já com algum tempo de carreira que intensificam seus trabalhos e, principalmente, uma referência crítica sobre a qualidade das publicações"

AMIR PIEDADE

EDITOR DA CORTEZ

"Eles têm uma defasagem do período de publicação com o lançamento do anuário. O ideal seria se conseguissem publicar anualmente. Sem esse hiato, sentiríamos mais ainda o impacto do anuário no mercado editorial"

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