CASTELOS DE AREIA DE HAACKE MUNTADAS: INFORMAÇÃO E SOCIEDADE

Consagrado artista conceitual alemão ganha retrospectiva na Espanha

CAMILA MOLINA / MADRI, O Estado de S.Paulo

26 de fevereiro de 2012 | 03h08

"Uma sociedade democrática deve fomentar um pensamento crítico que inclua a autocrítica constante", afirma o artista alemão Hans Haacke. Pintor e criador da seara conceitual, pensador de obras que tratam de sistemas políticos, monetários, biológicos, midiáticos, imobiliários, do circuito da arte, de poder, etc., Haacke tem, no momento, uma grande mostra dedicada à sua trajetória no Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofia, de Madri. Castelos no Ar, inaugurada na semana passada e em cartaz até 23 de julho, reúne trabalhos que o consagrado alemão realizou desde a década de 1960, entre eles, uma instalação inédita feita especialmente para a retrospectiva, criada a partir do mercado imobiliário da capital espanhola.

É daquelas exposições que requerem atenção focada e abrem ainda espaço para a ironia e o humor (numa das salas, um bracinho cinético acena e recebe os visitantes em meio aos dizeres "A Mão Invisível do Mercado", numa referência direta à expressão do economista Adam Smith). Aliás, o Reina Sofia vem se firmando como uma instituição interessada na arte conceitual - dos anos 60 e 70, incluindo a América Latina. Tanto vem sendo assim que simultaneamente à mostra de Hans Haacke, o museu exibe uma antologia do catalão Antoni Muntadas, conhecido por suas pesquisas sobre a relação entre mídia e sociedade (leia nesta página), e apresenta novas aquisições em exposição sob o título Da Revolta à Pós-Modernidade (nela está uma versão da famosa instalação Tropicália, criada em 1967 pelo carioca Hélio Oiticica).

Periferia. Aos 75 anos, Hans Haacke se debruçou sobre a periferia de Madri e conheceu uma área descampada chamada Ensanche de Vallecas. A vila, em processo de construção na região sudoeste da cidade, não apenas se caracteriza pelo estranhamento de ser um híbrido entre o vazio e a modernidade, como também por ter suas ruas despovoadas batizadas com nomes de artistas e movimentos artísticos (da arte pop ao escultor Eduardo Chillida). Um prato cheio para que o alemão explorasse a ironia imanente da situação - a instalação Castelos no Ar, formada por fotografias, um mapa e um caminho de 35 metros de comprimento com projeções de vídeos, coloca, no mínimo, certo absurdo.

Castelos no Ar é uma obra menos explícita (mais metafórica) que outras de denúncias criadas por Haacke, como Cowboy with Cigarette (1990), que trata de patrocínios da empresa de tabaco Philip Morris para exposições ou Global Marketing (1986), sobre a companhia Saatchi e sua vazia publicidade. News (1969-70) é um trabalho simples e atual com apenas uma impressora programada para receber notícias sobre economia e política publicadas por agências de vários países (e os papéis, lidos ao vivo na sala expositiva, vão se acumulando no chão). Censos sobre dados sociais e pessoais também formam instalações de Haacke (principalmente, as realizadas em Nova York, por vários períodos).

No ano passado, o espanhol Antoni Muntadas exibiu uma antologia de suas obras em São Paulo, a mostra Informação Espaço Controle, que ocupou um andar da Estação Pinacoteca. Um dos trabalhos da exposição, Alphaville e Outros, foi criado na ocasião a partir de sua experiência na metrópole brasileira.

A instalação, que trata da "ideia de liberdade controlada" nos condomínios de luxo, é formada por painéis com reproduções de anúncios publicitários, bandeiras com palavras pinçadas dos comerciais de compra e venda de imóveis (beleza, sonho, sucesso, rastreamento, tecnologia, tradição, etc.), vídeo - edição com fragmentos do filme Alphaville, de Godard. Agora, a obra ocupa uma sala do Reina Sofia e é destaque da retrospectiva Entre/Between, em cartaz no museu madrilenho até 26 de março.

Considerado um pioneiro da arte conceitual em seu país, Muntadas se divide entre a Espanha e os EUA - e tem uma relação de décadas com o Brasil. Além de Alphaville e Outros, faz parte da mostra o trabalho que criou, em 2002, para o Arte/Cidade Zona Leste, em São Paulo. Antologia de peso, também coloca a atualidade de um criador que descobriu a complexa brecha existente no universo de significações presentes no mundo midiático/publicitário - On Translation (1995/2011) é sempre um alerta. / C.M.

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