Castas brasileiras

A elite rural e urbana do século 19 não se imaginava viver sem escravos

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

10 Março 2018 | 01h00

Por que nasci indignado? Por que quero consertar o Brasil? Por que, como pedestre, dou lição de moral àqueles que desperdiçam água lavando a calçada com esguicho? Por que me identifico com o prefeito Jânio Quadros e, no trânsito, tento educar motoristas velozes, infratores, desrespeitosos, barbeiros? 

Não seria melhor ser um pedestre alienado, um cidadão alienado, alienar-me no país que vive uma barbárie civilizatória há século?

Por que fico furioso quando um médico diz que, “sem nota, é mais barato”, por que o médico quer sonegar o imposto que será revertido a mim e meus filhos?

Tive um “piti” jacobino na entrada do meu condomínio. Sozinho e com febre, encomendei um remédio na farmácia. Em solidariedade, iriam apressar a entrega. Em minutos, o interfone tocou. Então, começou a farsa do absurdo. 

Entrega da farmácia não é autorizada a entrar. Passando bem ou mal, devo descer. Quando estou para entrar no elevador, toca o interfone. Reconsideraram. Uma exceção foi feita, a entrega subirá.

Cinco minutos, dez minutos, 15 minutos... O elevador social ali, no meu andar, parado. A entrega errou de bloco? Atravessei à cozinha, vi o elevador de serviço parado do térreo e com PA de porta aberta. Deduzi a falha do sistema: discriminação.

Se você mora em São Paulo, está familiarizado com a Lei 11.995/96: “É vedada, sob pena de multa, qualquer forma de discriminação em virtude de raça, sexo, cor, origem, condição social, idade, porte ou presença de deficiência e doença não contagiosa por contato social no acesso aos elevadores deste edifício.”

Os condomínios são obrigados pela mesma a destacar avisos no interior de edifícios públicos municipais ou particulares, comerciais, industriais e residenciais multifamiliares paulistanos. É preciso um lembrete para informar que é vedada a discriminação por raça, sexo, cor, condição social, “a fim de se assegurar o conhecimento da presente lei”. 

Porque, velada ou explicitamente, sim, discriminam-se raça, cor e status social na maior cidade do País, cuja Constituição dita que todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza.

O que poucos sabem é que a 11.995 tem um segundo artigo: “Fica estabelecido que, para maior conforto, segurança e igualdade entre os usuários, o elevador social é o meio normal de transporte de pessoas que utilizam as dependências dos edifícios, independente do estatuto pelo qual fazem e desde que não estejam deslocando cargas, para quais podem ser utilizados os elevadores especiais”.

O descumprimento de qualquer dispositivo implica em multa no valor de 30 UMFs, aumentada em 100% no caso de reincidência.

Empregados, babás, motoristas, enfermeiros que prestam serviços aos moradores do meu condomínio só podem utilizar o elevador de serviço; um só por bloco. Em que se descarregam entulhos de obras, lixo dos moradores, sobem e descem mudanças. 

Detalhe. O condomínio tem portas diferenciadas de entradas para funcionários e moradores. Diferentes portarias; funcionários são obrigados a utilizar a mais distante do transporte público, enquanto moradores e seus pets, a mais próxima.

No meu condomínio de cinco blocos, muitos bateram panelas nas varandas durante os protestos de 2016. Na área social, em dias de manifestação, a grande parcela circulou de verde e amarelo. Indignados, queriam e querem um novo Brasil. Têm todo direito de se manifestar. 

Sou defensor da democracia e justiça social. Me pergunto se não deveriam começar de dentro pra fora: combater a sonegação, as infrações diárias e a herança da sociedade escravocrata, a discriminação.

A maioria, claro, já viajou para fora. Viu como “as coisas funcionam” na América e Europa. Onde, aliás, não existe possibilidade de avisos ou segregação, divisão de entradas social e serviço, nem quartos de empregadas, onde, por sinal, não se contratam empregados, o proprietário faz jardinagem, marcenaria, conserta encanamentos, limpa banheiros, tira a neve e o lixo, cidadão cujos antecedentes passaram por um processo revolucionário republicano e lutaram por direitos humanos, liberdade, igualdade e fraternidade.

Desci no térreo pelo social. Claro, lá estava o entregador, com pacotinhos de outras entregas, com babás, funcionários do próprio prédio, bloqueados pela retirada do entulho da obra de um vizinho.

Peguei-o no braço, fui na administração, subi o tom de voz e fiz um discurso. Ao meu redor, funcionários da mesma raça, cor, categoria social. É ilegal, imoral, indecente, desumano o que vocês fazem! Vocês não têm vergonha?!

Eles não têm nada com isso. No país das contradições e do poder invisível, obedecem ordens. Um funcionário mais experiente, o mais gente boa, elaborou: tem morador que se sente incomodado e já reclamou da presença de empregados no elevador social. Poderiam multá-lo (30 UMFs dão R$ 4.574).

Conheci no centro da cidade um quarto-e-sala modesto, que tinha área de serviço, banheiro e quarto de empregados. Que vício. A elite rural e urbana brasileira do século 19 não se imaginava viver sem escravos. Postergou sua abolição até onde deu. 

Em São Paulo, um morador de uma quase quitinete precisa de um empregado nos seus calcanhares. Morando com ele. Este novo Brasil não chega nunca?

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