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Cássio Michalany explora diferentes cores e formatos em mostra

Exposição está no Gabinete de Arte Raquel Arnaud, em São Paulo

Rodrigo Naves - ESPECIAL PARA O 'ESTADO',

27 de agosto de 2012 | 08h39

Nas artes visuais não há atualmente admoestação mais grave do que acusar alguém ou algo de “formalista”. O que é uma pena. Não só porque cansa e ofende ver por aí tantas obras enfáticas e inofensivas sobre opressões, desigualdades e misérias, que infantilizam e enchem de culpa os observadores. Mas, sobretudo, porque esse raciocínio leva a crer que os problemas centrais da vida contemporânea se resolveriam pela denúncia das relações opressivas ou injustas. O que realmente nos falta é uma compreensão aguda das dinâmicas sociais de hoje, de modo a podermos vislumbrar uma maneira efetiva de mudarmos as coisas. Ou seja, precisamos menos de denúncias e mais de uma capacidade de articular a realidade dissipada dos nossos dias. E aí não há como prescindir da noção de forma. Forma não é fôrma. Boas intenções podem ser sinônimo de caridade.

Cássio Michalany pinta faixas há mais de 30 anos. Na Disneylândia de “esquerda” em que habitam muitos curadores, críticos e instituições de arte contemporânea, o artista já estaria vivendo entre os camponeses, reeducando-se junto àqueles que guardam o segredo da emancipação do mundo. No entanto, acredito que poucos artistas contemporâneos tocaram em questões tão decisivas quanto Cássio. Por volta de 1992, ele incorporou a suas faixas um procedimento que ainda o ocupa: a permutação entre as áreas de cor.

Nessas telas, Cássio evitava dar às cores qualquer dimensão expressiva e pessoal. Suas cores são quase anódinas, esmalte sintético comprado em lojas de materiais de construção. E o artista aplica-as sem gestualidade ou fatura. Usa-as como se pintasse uma parede. E a permutação entre elas - digamos, azul, branco e preto - não buscava revelar uma dimensão posicional das faixas de cor, uma situação em que o azul em contato com o preto se mostraria diferentemente da relação estabelecida com o branco.

Àquela época, eu tinha a convicção de que a intuição que movia aquelas séries estava ligada a uma avaliação quase otimista do crescente afrouxamento das relações que mais progrediam na sociedade contemporânea: o setor de serviços, um trabalho (se ainda podemos usar essa palavra em relação a ele) em que as identidades individuais já quase não tinham vínculo com aquilo que homens e mulheres faziam, justamente porque já não faziam propriamente nada e sua sociabilidade tinha uma natureza muito diferente do trabalho nas oficinas, nas fábricas ou no campo.

A meu ver, as séries permutadas de Cássio Michalany procuravam levar a um grau máximo a disponibilidade desses vínculos contemporâneos, nos quais a ausência de interação em função da produção de algo conduzia ao apego a ilusões comoventes, mas discutíveis: o melhor amigo, a fidelidade à mulher já castigada pelo tempo, férias na praia, o amor ilimitado por um labrador. Nas permutações seria possível experimentar uma identidade frágil que prometia emancipação, embora não se soubesse aonde isso levaria.

Josef Albers, em sua série Homenagem ao Quadrado, iniciada em 1949, fazia uma aposta contrária. Segundo as análises de Paloma Oliveira de Carvalho Santos, uma pesquisadora de sua obra, a renúncia às cores em si, a ênfase na interação entre elas - tão transformadora - apontava para uma noção mais realista dos indivíduos e grupos sociais, já que a sua inserção em contextos diversos poderia por em xeque uma definição redutora de José ou Pedro (amarelo ou laranja), pois sua verdade adviria de um complexo de relações fortes, que para Cássio já não seria observável na sociedade contemporânea. A leveza dessas identidades tão fugazes, apontadas pelo artista brasileiro, poderia abrir caminho para uma disponibilidade liberadora, cujo sentido seria difícil de equacionar.

Nas duas séries mais importantes da exposição que se abre nesta terça-feira, 28, no Gabinete de Arte Raquel Arnaud, o artista parece fazer um novo movimento, sem pôr de lado as listras que o acompanham há tanto tempo. Definitivamente, Cássio não se interessa por mudar seu trabalho à base de chicotadas. Nas duas séries, que se diferenciam apenas pelas dimensões, os quatro quadros são compostos por três chassis aparafusados entre si, cada um com uma cor diferente. No conjunto, são usadas quatro cores que se permutam: azul, bordô, tabaco e verde. Como em cada uma das telas são empregadas apenas três cores, a visão de conjunto das séries introduz um ruído na reversibilidade dos trabalhos anteriores. Há sempre uma cor que fica de fora. E essa ausência, ao menos para mim, tem a força de um raio.

Há um jogo (muitas vezes um golpe) de prestidigitação conhecido como “achadinho”, em que, sobre uma mesa precária, uma pessoa hábil (uma habilidade em geral aprendida na ociosidade das cadeias) faz uma bolinha se mover entre três tampinhas de garrafa. Deixando de lado as mutretas que envolvem o jogo, o que interessa aí é conseguir manter a atenção na tampinha que oculta a bola, para assim ganhar a aposta. Há algo disso nas séries de Cássio. Só que a cor que falta em cada tela não foi ocultada por um passe de mágica. A estrutura dos trabalhos decidiu deixar sempre uma delas de fora.

E então aquela troca de papéis leve e descomprometida de suas permutações adquire um aspecto mais grave. Para que o jogo siga em frente, é preciso deixar sempre um elemento de fora. A plenitude visual da relação entre as quatro áreas de cor se insinua a todo instante. Apenas para nos frustrar em seguida. Essa exclusão pode dizer respeito à incompletude radical das práticas sociais e às possibilidades que elas mantêm no horizonte. Mas podem também não passar de um jogo de cadeiras em que sempre alguém precisará ficar de fora para que a máquina não pare.

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