"Caso Schreber", pela primeira vez, no teatro

Um livro no divã. Não foi a partir das palavras de um paciente de seu consultório, mas a partir de um texto que Freud criou um de seus mais famosos estudos sobre a paranóia: o "Caso Schreber". O paciente, nesse caso, é o juiz alemão Daniel Paul Schreber (1842-1911), que relatou, no livro Memórias de um Doente de Nervos, sua experiência como interno de um sanatório para doentes mentais.O mesmo relato que despertou o interesse de Freud inspirou o espetáculo Nervos de Deus, dirigido por Eugênia Thereza de Andrade, também responsável pela adaptação do texto de Schreber. A peça está em temporada num pequeno espaço teatral o Jogo Estúdio, em Perdizes. Porém, neste fim de semana, Nervos de Deus tem apresentações especiais no Sesc Pompéia, integrando uma programação mais ampla: um ciclo de palestras organizadas a partir do tema do espetáculo.Amanhã, às 19 horas, antes da apresentação da peça, o psicanalista Joel Birman, titular do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio, faz sua palestra intitulada A Cultura do Narcisismo e do Espetáculo na Pós-Modernidade. No sábado, após o espetáculo, será a vez do psiquiatra Gabriel Figueiredo, professor da PUC de Campinas, falar sobre O Caso Schreber do Ponto de Vista da Clínica Psiquiátrica Contemporânea."É a primeira vez que Schreber torna-se personagem de teatro", afirma a diretora Maria Eugênia, que adaptou o texto a partir da tradução da psicanalista Marilene Carone, com a ajuda de Modesto Carone. No elenco estão Carlos Alberto Escher, Cássio Brasil, Jorge Luis e Maira Andrade. A ambientação do espetáculo - em muitos momentos os atores movimentam-se pendurados em cordas - remete à infância do personagem.Seu pai foi um médico e pedagogo renomado na Alemanha, com mais de 20 livros publicados, muito vendidos na época. Ele desenvolveu um método pedagógico baseado na "postura correta" e orgulhava-se de aplicar nos próprios filhos a utilização de suas invenções: aparelhos ortopédicos de ferro e couro, atualmente vistos como verdadeiras máquinas de tortura."Eu acho que Freud falhou ao desconsiderar a influência desse pai tirânico na loucura de Paul Schreber", argumenta Eugênia. A peça mostra flashes da infância angustiada do menino Paul, implorando ao pai que o liberte dos aparelhos corretores. Schreber foi nomeado juiz-presidente da Corte de Apelações de Dresden, aos 51 anos de idade. Pouco depois, tem um primeiro surto e é internado sob o diagnóstico de hipocondria. Dois anos depois, sai do sanatório, para onde volta em 1907 e fica até sua morte. Ele acreditava estar se transformando numa mulher e, ainda, que seus "nervos" atraíam Deus, que geraria nele um filho.Nervos de Deus. Concepção e direção Eugênia Thereza de Andrade. Duração: 1 hora. Esta semana, sexta e sábado, às 21 horas; domingo, às 18 horas. R$ 15,00. Sesc Pompéia. Rua Clélia, 93,tel. 3871-7700. Depois, sexta e sábado, às 20h30; domingo, às 19 horas. R$ 15,00.Jogo Estúdio. Rua Inocêncio Unhate, 120, tel. 3862-4057. Até setembro. Palestras: hoje, às 19 horas, Joel Birman; sábado,às 22 horas, Gabriel Figueiredo.

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