Imagem Humberto Werneck
Colunista
Humberto Werneck
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Caso pançudo

O novo romance de Chico Buarque, O Irmão Alemão, veio desenterrar, como matéria-prima para excelente ficção, uma fascinante história iniciada há 85 anos e em cuja esteira, imagino, virão detalhes enriquecedores.

HUMBERTO WERNECK, O Estado de S.Paulo

30 de novembro de 2014 | 02h06

Já estão vindo, me parece. Virada a última página, a memória me levou a uma crônica de Manuel Bandeira, Retirada da Rússia, originalmente publicada em janeiro de 1931 no Diário Nacional e trazida outra vez à tona por Júlio Castañon Guimarães na coletânea Crônicas Inéditas I, de 2008.

O personagem é o pai do Chico, o historiador Sérgio Buarque de Holanda (com um L apenas, ao contrário dos filhos), então recém-chegado da Alemanha, onde estivera por um ano e meio como correspondente dos Diários Associados. Ainda jovem - 28 anos -, o futuro autor de Raízes do Brasil voltou cheio de novidades, uma das quais o amigo Bandeira, a quem não faltava malícia, destacou naquela crônica como ilustração "da prática da libertação de certo instinto na Alemanha".

"Brasileiros que viveis uma vida apertada, conversai com o Sérgio!", conclamou o poeta. "Ele vos contará cousas de deixar água na boca e traz detalhes surpreendentes, como a venda em caixas automáticas, que se encontram em toda parte (nos cafés, nos bares, nas ruas, ao lado das caixas de correio), de um certo artigo de caoutchouc, que aqui só se compra em farmácia e meio que encalistradamente." Desse mesmo artigo, acrescentou Bandeira, "há uma casa especial na Wilhelm Strasse, em cuja vitrine se ostenta um modelo da mercadoria em tamanho aumentadíssimo, aí cousa de um metro."

Ninguém precisaria saber que caoutchouc é borracha em francês para identificar o achado que tanto impressionou Sérgio e, por seu intermédio, Manuel Bandeira.

Mas a que vem este papo elástico? Ao seguinte: tivesse Sérgio Buarque de Holanda sido consumidor mais disciplinado do referido artigo de caoutchouc e não teríamos, oito décadas e meia mais tarde, este que é talvez o melhor romance de seu filho Chico.

Do livro quero falar, mas não hoje; fiquemos por ora com as consequências, literárias inclusive, da relação eventualmente platônica do grande historiador com as tais caixas automáticas.

É também Bandeira quem registra, dessa vez numa carta a Mário de Andrade. Em 26 de julho de 1930, dá notícias de Sérgio, uma delas preocupante: o moço achava-se "enrascado num caso pansudo".

Pansudo? Não adianta ir ao dicionário: na atual ortografia, o poeta certamente quis dizer "pançudo", sim, de pança. Não que ele, até então esbelto, tivesse adquirido um barrigão nas cervejarias de Berlim. Não há dúvida: Sérgio estava enrascado por haver contribuído para inflar barriga alheia. Mais exatamente, soube-se depois, a de uma nativa de nome Anne. Não se sabe como ele reagiu à inesperada inflação que provocara, mas deixou Bandeira preocupado, pois o poeta anotou na carta a Mário: "A legislação alemã é severa nesse capítulo".

Uma coisa parece certa: o moço estava bem caído pela moça. Pelo menos é o que se pode deduzir de uma história que contou a outro amigo, Moacir Werneck de Castro, transcrita no livro Europa 1935.

Em 1929, Sérgio frequentava os estúdios de uma produtora de cinema, a UFA, onde fazia um bico como tradutor de legendas. Na cafeteria, volta e meia topava com ninguém menos que Marlene Dietrich.

Entre um tomada e outra de O Anjo Azul, escreve Moacir Werneck de Castro, a diva deu a Sérgio a impressão de "estar muito a fim de um romance com ele". Nada feito: "O nosso galã esnobou a divina Marlene. Tinha uma namorada. Não se interessou por aquela mulher por quem milhões de homens se apaixonaram, inclusive eu, adolescente, que amava a dona das pernas mais lindas do mundo". Galã? Não custa lembrar a descrição que fez Francisco de Assis Barbosa do jovem Sérgio: "Alto, loiro e magro, jeito de alemão".

Já pensou se o autor de Visão do Paraíso tivesse trocado aquela namorada, por certo a misteriosa Anne (ainda não pançuda, pois só veio a parir no final do ano seguinte) pela Marlene Dietrich? A Europa teria se curvado ante o Brasil, mas não teríamos o belo romance que Chico Buarque acaba de nos dar. A menos que também com o Anjo Azul o impetuoso Sérgio tivesse esquecido de se abastecer de caoutchouc nas onipresentes caixas automáticas de Berlim.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.