Casimiro de Abreu, Romancista

Incursão do romântico, que morreu há 150 anos, na prosa de ficção foi analisada à luz de suas influências mais decisivas e conquistas

Antônio Soares Amora, O Estado de S.Paulo

23 de outubro de 2010 | 00h00

17.9.1960

É sabido que Casimiro de Abreu tem particular significação, na ordem das exigencias da critica, apenas como poeta, contudo nem por isso se pode deixar de convir em que suas malogradas tentativas de ficcionista, especialmente o pequeno romance Carolina, têm bastante interesse literario.

Carolina, romance publicado em 12 e 13 de março de 1856, em dois folhetins do "Progresso", jornal lisboeta, desenvolve a historia de uma desgraçada moça que, tendo despertado para o namoro e para as consequentes solicitações do amor, vê-se inesperadamente abandonada por Augusto, que, apesar de todos os juramentos de paixão e de eterna fidelidade a essa paixão, põe acima de tudo, isto é, de todas as exigencias dos corações de ambos, razões praticas da vida, que o obrigam a longa ausencia no estrangeiro. Aberto o coração de Carolina às aliciantes e perturbantes emoções e sensações passionais, fácil foi entrar, nesse coração pouco depois, um novo amor; mas então, não mais de um namorado, fervoroso, contudo puro amante, e sim de um reles conquistador, Fernando, que desgraça a inexperiente Carolina: sedu-la; fá-la abandonar, tomada de vergonha e medo, a casa paterna; mantém-na como amante, pelo tempo necessario à dissimulação do crime; põe na roda o filho nascido da sedução, e por fim abandona-a, no meretrício de Lisboa. Fiel à palavra dada e a seu amor, passados dois anos regressa Augusto, para cumprir a promessa nupcial. Sabedor da fuga de Carolina com um amante, sofre todas as dores dos sentimentos traidos, e quando um dia é levado por um amigo, por fatalidade o mesmo Fernando, a um prostibulo, para esquecer suas pungentes desilusões (...), encontra a desventurada Carolina. O desenlace desse encontro dos três protagonistas, engendrado por diabolico acaso, resulta em consequencias tragicas (...). Poucos dias depois, em Setubal, Carolina, amparada pelo consolo da religião, que lhe ministra compreensivel sacerdote, morre definhada pelo sofrimento; Augusto, que a procurara em vão, para a perdoar e compensá-la pelo amor, de tudo que padecera, tem apenas o consolo de duas cartas da infelicitada amada: uma, em que lhe conta toda sua dolorosa historia e lhe pede o perdão, que só um grande coração poderia dar; outra, escrita nos ultimos momentos de vida, com algumas linhas de derradeiro e sereno adeus.

O pequenino romance contém, facilmente perceptiveis, os comuns ingredientes dos romances passionais da epoca, já utilizados por Alexandre Herculano e por Garrett, e a partir de então bastante empregados por Camilo, Alencar, Bernardo Guimarães e Taunay.

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