Cínthya Carvalho
Cínthya Carvalho

Casas de shows e teatros ampliam público em São Paulo: quais os riscos?

Plano São Paulo permite apresentações, mas é preciso manter distanciamento entre mesas ou grupos de pessoas; infectologista diz que ainda é preciso cautela

Ubiratan Brasil e Danilo Casaletti, especial para o Estadão, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2021 | 05h00

O governador João Doria foi taxativo em sua fala durante a coletiva de imprensa realizada na quarta-feira, dia 18, no Palácio dos Bandeirantes: o Estado de São Paulo não está mais em quarentena. Um dia antes, o governo já havia anunciado o fim das restrições de horário e capacidade de público para atividades culturais como museus, cinemas, teatros e shows – esse último, desde que seja com as pessoas sentadas. Apresentações musicais de médio e grande porte e com o público em pé continuam proibidas.

Com isso, as casas de shows e teatros começam aos poucos a ampliar sua capacidade de público que, seguindo o Plano São Paulo, começou com 40%, avançou para 60% e, agora, chega a 100%, embora o uso de máscara seja obrigatório e o distanciamento social tenha de ser cumprido – a recomendação é a de que haja 1 metro de distância entre as mesas ou grupo de pessoas, o que acaba inviabilizando, em muitos casos, o retorno do público total.

A Sala São Paulo, que reabriu ao público no final de abril, vem ampliando sua capacidade gradativamente. Primeiro, passou a contar com 370 lugares, ou 25% de sua capacidade. Depois, ampliou para 480 e, agora, para 638 lugares, o que irá garantir o cumprimento da regra de distanciamento. 

O Tom Brasil, com capacidade para receber até 1.800 pessoas, passa a trabalhar com 75% de sua capacidade. Segundo a assessoria de imprensa, a casa faz a aferição de temperatura do público na entrada, disponibiliza álcool em gel por todo espaço e cumpre o distanciamento entre as mesas. No sábado, 21, ele já recebe o grupo Turma do Pagode. Para o fim de semana seguinte, estão programados dois shows de Oswaldo Montenegro.

O grupo São Paulo Eventos, responsável pelo Espaço das Américas, Villa Country e Expo Barra Funda optou, mesmo após a liberação de 100% da capacidade, trabalhar com 20% do público. O Espaço das Américas, que pode receber 8.500 pessoas, trabalha atualmente com 1.560 lugares. Lá, é possível comprar mesa para 4 pessoas ou camarote para 6. Até o final do ano se apresentam na casa nomes como Ney Matogrosso, Os Paralamas do Sucesso, Alceu Valença e Chitãozinho & Xororó. O Villa Country e o Expo Barra Funda funcionarão apenas com camarotes privativos, instalados onde antes funcionava a pista.

Já o Blue Note São Paulo planeja sua reabertura para 1º de outubro, o Dia Internacional da Música, com um show do bandolinista Hamilton de Holanda. Depois, virão atrações como Toquinho, João Donato, Geraldo Azevedo e Paula Lima. A venda de mesas será para 2, 4 ou 6 lugares para grupos do mesmo convivido social. Dos 336 lugares antes disponíveis, 229 serão disponibilizados agora, cerca de 60% deles.

O Sesc São Paulo, que em tempos normais abrigava dezenas de shows em suas unidades, sobretudo aos fins de semana, segue ainda sem data prevista para a retomada das atividades musicais com a presença do público na plateia. O mesmo informa a Casa Natura Musical.

Teatro

Para os teatros, a situação é mais complicada, pois o respeito ao distanciamento social não permite o uso de toda a capacidade. “Para seguirmos com mais de 50% da ocupação, a lei municipal que define o distanciamento teria de mudar”, observa Claudia Hamra, administradora do Teatro Faap, que deverá reabrir em outubro, com Marisa Orth na peça Bárbara, inspirada no livro A Saideira, de Bárbara Gancia.

Com programação definida também estão o Teatro do Sesi (que estreia, em 10 de setembro, a peça Tectônicas) e o Centro Cultural São Paulo (com O Arquiteto e o Imperador da Assíria, em 24 de setembro). E, como todo cuidado é pouco, teatros como o da Aliança Francesa (ocupado pela peça Um Picasso) só vendem ingressos pela internet, para evitar filas no espaço. E, se há aqueles que ainda esperam a definição da situação para reabrir (como o Vivo e o Eva Herz), outros se preparam para receber grandes espetáculos. 

É o caso do Teatro Liberdade, que terá a estreia de Cinderella, o Musical, no dia 2 de setembro. Os ensaios têm a participação de 28 pessoas, que são testadas semanalmente para a covid. E também o Santander, que retoma, também no dia 2, a temporada interrompida no ano passado de Summer – Donna Summer Musical

“Estamos confiantes na vacinação para a volta do público”, comenta Célia Forte, sócia de Selma Morente em uma produtora, que tem estreias para setembro e outubro. “Como o teatro tem lugar marcado, é mais seguro. Até pensamos em liberar acesso apenas para vacinados, mas o controle na entrada e durante o espetáculo pode ser suficiente.”

Para a médica infectologista Giovanna Sapienza, do Hospital Santa Isabel e da Centro de Prevenção Meniá, atividades culturais com grande número de pessoas em um mesmo ambiente continuam sendo perigosas. 

“Liberar 100% da capacidade não é algo seguro. Abrir esses espaços agora, com a variante delta em circulação, é arriscado. Não sabemos o que vamos colher daqui a algumas semanas. Por outro lado, entendo que seja uma decisão difícil por parte do governo, há a pressão do meio cultural, as pessoas querem voltar à vida normal”, diz a médica que, a pedido do Estadão, respondeu, abaixo, a perguntas para orientar o leitor nessa retomada.

 

TIRA-DÚVIDAS: Quais os riscos de contaminação na retomada?

Frequentar uma atividade cultural é mais ou menos perigoso do que ir à academia ou a um supermercado, por exemplo?

A academia é o mais perigoso dos cenários. Nela, as pessoas estão suando, muitas vezes vão com uma máscara mais confortável, o acessório fica molhado pelo suor. É muito difícil manter as regras de distanciamento. Em um mercado, você, no geral, fica menos tempo. E o contágio é proporcional ao tempo que você fica no local e à quantidade de pessoas que estão no mesmo ambiente. Já uma atividade cultural precisa ser organizada, ter distanciamento e seguir as regras de higiene. Para o cenário que vivemos hoje, de toda forma, ainda é perigoso. 

Para quem tomou uma dose da vacina, já é seguro frequentar lugares fechados e com muita gente?

Eu não recomendo. Mesmo vacinado, quem estiver infectado pode transmitir a doença. Você pode pegar o coronavírus, levá-lo para casa e infectar um idoso ou alguém com comorbidade que pode adoecer gravemente.

Quem já tomou as duas doses está mais seguro?

Sim, mas apenas após 14 dias da segunda dose.

Medidas como aferir temperatura na entrada, álcool em gel e distanciamento são suficientes para impedir o contágio em lugares como shows, cinemas, museus e restaurantes?

Não. Primeiro porque em poucos casos há o aparecimento de febre. Medir temperatura é um protocolo que chega a ser inútil. É uma falsa sensação de segurança. Há muitos assintomáticos. Mesmo porque se você não estiver bem, não vai sair para uma atividade cultural, vai ficar em casa. O mais importante é o controle do número de pessoas no mesmo local, distanciamento social e o uso da máscara. É melhor os locais investirem em funcionários que confiram, por exemplo, se todos estão usando a máscara, e na troca constante do ar.

Em um show, é seguro dividir a mesa com pessoas desconhecidas?

Se todo mundo permanecer de máscara, separados por uma mesa, a probabilidade de se contaminar diminui. O problema maior é a quantidade total de pessoas naquele mesmo ambiente.

Estou seguro ao sentar ao lado de um desconhecido no cinema?

Repito, o problema não é só a poltrona ao lado, e sim quantas pessoas estarão na sala. O vírus se espalha. Se tiver alguém contaminado, pode infectar a sala toda.

Se eu for a uma atividade cultural e me manter de máscara o tempo todo, mesmo que outras pessoas tirem as suas, é menos provável que eu te contamine?

Todo mundo precisa usar máscara – e de boa qualidade. É preciso pensar no coletivo. Se todo mundo respeitar as regras, a transmissão cai.

Posso tirar a máscara para consumir algo durante a apresentação ou dentro da sala de cinema?

Não. Há muito risco. Fique com a máscara o tempo todo.

Posso me contaminar ao usar copos e talheres fora de casa?

Se a pessoa que estiver manipulando esses objetos estiver com a covid e te entregá-los, você pode se contaminar, sim. Porém, se os protocolos estiverem sendo seguidos, ou seja, a pessoa estiver de máscara, higienizando as mãos, o risco é pequeno. A maior forma de transmissão da covid é pelo ar.

Corro risco ao deixar meu carro com um manobrista?

Se o manobrista estiver infectado e entrar no seu carro, haverá o risco de você se infectar também, sobretudo se você entrar no veículo e tirar a máscara. O ideal é não deixar o veículo com o manobrista ou, ao pegar o carro, deixar os vidros abertos por pelo menos dez minutos para o ar circular.

As máscaras mais indicadas para frequentar atividades culturais são PFF2 e a N95?

São as mais seguras. 

As máscaras de pano não são eficientes nesse caso?

Não, não recomendo.

Qual seria o cenário ideal para frequentar uma atividade cultural e ter menos risco de contaminação?

Além das duas doses da vacina, respeitando os 14 dias, é preciso ter consciência de não sair de casa se estiver doente ou com algum sintoma. Usar máscara N95 ou PFF2. Por fim, escolher horários alternativos, quando esses locais estiverem menos cheios.

Idosos e pessoas com comorbidades devem voltar a frequentar atividades culturais neste momento?

Não, de forma alguma. Mesmo com a vacina e todos esses cuidados. Para essa população, está sendo discutida a necessidade de uma terceira dose. Uma ideia, por exemplo, pode ser a visita a um museu, em um horário menos frequentado, quando se possa fazer o distanciamento social. Shows e cinema eu não recomendo.

 

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