Casamento na vida é reforçado na tela

Paul Bettany conta como foi filmar Criação com Jennifer Connelly

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

22 de março de 2010 | 00h00

Seus olhos são tão claros - azuis - que parecem vazados. Isso faz com que Paul Bettany, apesar da voz macia e do sorriso, passe uma sensação de frieza para o espectador e ela tem sido determinante nos rumos de sua carreira. Paul Bettany é muito bom para criar assassinos cruéis como o Silas de O Código Da Vinci, mas, mesmo aquele não é um criminoso unidimensional. Silas pode ser um fanático e até um monstro, mas é ambivalente na sua dedicação ao cardeal. A entrevista com Paul Bettany, num hotel de Los Angeles, era para falar sobre Legion (Legião), mas a Sony decidiu que não vai mais lançar o filme nos cinemas, no Brasil. Legião vai diretamente para DVD. O grupo é pequeno, alguém fala em Criação, o longa que conta a história de Charles Darwin e de como ele criou A Teoria das Espécies. A entrevista termina girando mais em torno do filme de Jon Amiel, que estreou sexta-feira.

Bettany trabalha com sua mulher (na vida) e ele é obviamente apaixonado pela mãe de seus filhos. Conta como foi contracenar com Jennifer Connelly. "Temos essa cena em que Darwin, depois de se afastar da mulher, tenta retomar o contato com ela. Ele desabafa, diz coisas duras sobre si mesmo e até sobre ela. Ficamos lado a lado, em silêncio e Jenn então diz, falando como a mulher de Darwin, que se fosse para começar tudo de novo, se casaria com ele outra vez. Eu abaixo os olhos, mas, acreditem, estava emocionado. Ela diz aquilo com tal convicção que era como se estivesse falando para mim."

Uma vantagem de trabalhar com a própria mulher, diz, é que, como ambos já compartilham uma relação, não sentem a necessidade, mesmo inconsciente, de se tocar em cena, para sugerir a aproximação. "O clima do filme é contrário a isso", ele avalia. Bettany é um ator do tipo aplicado, que gosta de pesquisar, até por conta própria, para os papéis que vai fazer. "E o problema de Darwin é que há muito material para se pesquisar. A teoria da evolução é uma das peças-chave do pensamento humano. Quando percebi isso, dei-me conta de que fazer o personagem era, ao mesmo tempo, uma honra e uma cilada. Poderia ser aterrorizante." De certa forma, ele já havia ensaiado o papel com o personagem do dr. Stephen Maturin de O Mestre dos Mares, de Peter Weir, no qual seu personagem também era um pesquisador. "O mais interessante é que John Collee escreveu os dois filmes, o de Peter e o de Jon. Charles Darwin é um personagem real; Maturin é uma figura de ficção. Curiosamente, foi o personagem de ficção que me iluminou o real. Para mim ficou absolutamente claro que Darwin não tinha, nem de longe, a força de Maturin. A força dele estava em Emma, a mulher. Separado dela, entrava em colapso."

A produção de Jeremy Thomas - parceiro de Bernardo Bertolucci em O Último Imperador - cercou-se de garantias. Cientistas deram seu aval e o tataraneto de Charles Darwin, Randal Keynes, foi uma presença permanente, para se assegurar de que as liberdades ficcionais não iam comprometer a acuidade histórica. "O mais curioso é quando você percebe que muito se sabe sobre a teoria evolucionista de Darwin, mas sobre ele... O velho com a barba permanece um mistério." Em Uma Mente Brilhante, de Ron Howard, ele já ajudara a construir a biografia do matemático John Nash. "Como atores, enfrentamos desafios o tempo todo, mas o maior desafio, ao criar o gênio, é dar-se conta de que jamais estaremos no mesmo nível dele."

Comparativamente, criar o anjo armado de Legião parece mais fácil. Paul Bettany contou que uma de suas fantasias sempre foi carregar asas e outra, uma metralhadora. Em Legião, de Scott Stewart, ele realiza ambas e, como o arcanjo Miguel, enfrenta a legião de anjos do mal que quer destruir a grávida cujo filho é a esperança da humanidade. "Não é que eu não levo a sério o papel. Como ator, quando entro num projeto, dou o melhor de mim para tornar o personagem convincente. A diferença é que aqui, desde o início, sabia que poderia ser divertido. Fui à internet pesquisar sobre anjos e é impressionante a quantidade de anjos armados que você encontra. Na maioria das vezes, são espadas. Scott (Stewart) me deu revólveres. É o sinal dos tempos", ele ri.

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