Casamento indissociável com a literatura

Em Hiroshima, Mon Amour, Alan Resnais trabalhou sobre roteiro da escritora francesa Marguerite Duras

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

08 de junho de 2013 | 02h08

No mesmo pacote que traz a versão definitiva de Acossado, de Jean Luc Godard - com dois discos de DVD, incluindo o filme e um monte de extras -, a Versátil oferece um regalo mais precioso ainda para o cinéfilo. Hiroshima, Meu Amor, de Alain Resnais, proporciona o casamento indissociável do cinema com a literatura. Conta a lenda que a escritora Marguerite Duras, já querendo fazer cinema - e ela virou depois diretora -, aceitou o convite de Alain Resnais porque achava que ninguém melhor que ele, na França, poderia ensinar-lhe o ofício. Marguerite queria escrever um roteiro, Resnais a incentivava a fazer literatura.

"Qui es-tu/Tu me tues/tu me fais du bien..." Quem é você, você me mata, você me faz bem. É a essência do diálogo que travam 'ele' e 'ela'. Ele é Eiji Okada - lui - como o arquiteto japonês que vai para a cama com Emmanuelle Riva - elle -, uma francesa que roda um filme em Hiroshima. E que filme é esse, ele pergunta? "Que outro filme se pode rodar em Hiroshima, senão sobre a paz?", ela retruca. Em 1959, 14 anos após a capitulação do Japão - e o fim da 2.ª Guerra Mundial -, o mundo vivia o período mais visceral da chamada guerra fria. EUA e URSS possuíam arsenais nucleares para destruir toda a vida na Terra. Neste quadro, o produtor Anatole Dauman propôs a Resnais um filme sobre a bomba atômica.

Resnais já filmara a arte africana (Les Statues Meurent Aussi), os campos de concentração (Nuit et Broullard) e a Biblioteca de Paris (Toute la Mémoire du Monde). Ao iniciar o projeto sobre a bomba, ele teve a sensação de se repetir. Concentrou a parte da bomba no começo do filme e liberou-se para contar uma das mais belas histórias de amor do cinema. "Tu n'as rien vu à Hiroshima", você não viu nada em Hiroshima, o japonês repete. E ela tenta lhe dizer como viu tudo - o horror da guerra, da bomba e o eterno renascimento.

O japonês adormece, após fazer amor, e um gesto de sua mão desperta na consciência da mulher outra imagem. Na guerra, ela amou um alemão, um soldado nazista, que morreu - foi morto - pela resistência. O japonês a incentiva a contar a história e quando ela perguinta o motivo, ele responde - "Porque foi lá, em Nevers (NR - a cidade em que tudo se passou), que eu tenho a impressão de que poderia ter perdido você." Ele é persuasivo e arranca dela a história que parecia esquecida. Jovem ainda, ela teve o amor proibido. Descoberta, teve a cabeça raspada, como um signo de humilhação. E no dia em que ela saiu, enfim, do porão em que se escondia e chegou a Paris, a bomba explodia em Hiroshima.

Uma nova versão de Hiroshima, Meu Amor foi lançada em Cannes Classics, no recente Festival de Cannes. Mais que o preto e branco, impecavelmente restaurado, o que impressiona na nova versão é o apuro sonoro. Existem dois temas musicais, um de Hiroshima e outro de Nevers. Foram compostos por Georges Delerue e Giovanni Fusco. Cenas como aquelas em que Emmanuelle lembra que o alemão e ela faziam amor 'partout' nunca foram mais intensas - e com aquela trilha.

Alain Resnais não pôde ir a Cannes apresentar sua obra-prima. Aos 91 anos, roda seu novo filme em Paris - e, como Manoel de Oliveira, eternamente jovem, tem outro projeto de filme engatilhado para 2014. Eiji Okada morreu em 1994. Sobrou, para apresentar Hiroshima, Meu Amor, Emmanuelle Riva. Ela tinha 31 anos quando fez o filme. Okada, a virilidade, Emmanuelle, a feminilidade. As cenas de sexo dos dois estão entre as mais incandescentes filmadas. Mais do que os corpos, é o mistério da voz, dizendo de forma ritmada o texto poético de Duras, que mantém o espectador elétrico.

No ano passado, Emmanuelle Riva fez a montée des marches, em Cannes, com Amor, e o filme de Michael Haneke não apenas ganhou a Palma de Ouro como fez aquela sensação em todo o mundo. Emmanuelle foi indicada para o Oscar. Ela estava bem-humorada. Lamentou que, ao contrário do filme, não possa ser restaurada. Disse que há tempos não via Hiroshima e estava feliz por estar ali, para assistir ao renascimento de um filme que foi fundamental para ela. E Emmanuelle acrescentou - Hiroshima venceu o desafio do tempo. Virou eterno. A cópia do DVD não é a de Cannes, mas está em boas condições. Não existem tantos extras quanto em Acossado. Mas, quando se ouve a voz de Eiji Okada - 'Tu n'as rien vu à Hiroshima...' -, o espectador já está ganho por Resnais.

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