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Casamento feliz

Grandes obras literárias estimulam reinvenção de linguagem nos palcos

Caetano Vilela, O Estado de S.Paulo

08 de março de 2011 | 00h00

Não é de hoje que obras-primas da literatura servem de farol para diretores cênicos, atores e dramaturgos sedentos por um tema universal que possa tocar o público e - com sorte e talento - também apontar novos caminhos estéticos e conceituais para o teatro. Não é raro uma boa adaptação para o palco devolver o interesse ao livro, fazendo com que o público (re)descubra a obra na sua essência; e, por vezes, também é o leitor que sente curiosidade de ver seu livro/autor preferido nos palcos, fechando assim um círculo de conquista e sedução que amplia leitores e espectadores.

A adaptação expressionista de Gerald Thomas para A Metamorfose e O Processo, as duas peças mais importantes da sua Trilogia Kakfa, não só esgotou os exemplares do livro numa livraria próxima ao teatro em que estava em cartaz em São Paulo, como mudou a referência do teatro moderno brasileiro nos fins dos anos 80. Anterior a Thomas, é histórico e bastante citado o casamento moderno da literatura com o teatro em Macunaíma, do mestre Antunes Filho (ainda em ótima forma e em cartaz, resgatando Lima Barreto para o teatro com o "retrato nacional" Policarpo Quaresma). Ele plantou a semente dos rumos que o teatro nacional iria seguir e também divulgou o nome de Mario de Andrade pelos quatro cantos do planeta.

Foi com a adaptação inventiva do romance de Jorge Amado, Velhos Marinheiros, que Ulysses Cruz (dissidente do Centro de Pesquisa Teatral de Antunes Filho) fincou seu nome no teatro nacional, fundando o grupo Boi Voador, que fez história nos anos 80 influenciando dezenas de artistas e grupos que vieram logo em seguida - perda irreparável foi o fim do grupo com a ida de Cruz para o núcleo de diretores Globo; quem se deu mal foi o teatro. Suas adaptações literárias não pararam por aí, renderam ainda complexas encenações das obras de Guimarães Rosa (as sete novelas que compõem Corpo de Baile numa lisérgica encenação que deve muito ao teórico e diretor russo Meyerhold), Mario Vargas Llosa (Pantaleão e as Visitadoras, com atores enfrentando a Terra, o Ar - içados por um helicóptero cenográfico - e o Mar - o palco era literalmente inundado e invadido por patos e gansos) e Gabriel García Márquez (Erêndira, como convidado do grupo Delta de Londrina).

O gênio pau-brasil Zé Celso Martinez Corrêa buscou no rebuscado Euclides da Cunha toda a alegoria e antropologia teatral para o seu rebuscado teatro dionisíaco presenteando-nos com Os Sertões, peça em constante processo de criação, nunca trabalhada para se chegar a uma síntese, mas sempre numa versão reloaded, o que parece ser coerente com a proposta de "síntese do caráter povo brasileiro".

Cacá Carvalho, lançado como protagonista da primeira versão de Macunaíma de Antunes Filho, alcançou o status de "sir" com a sua definitiva atuação para Meu Tio Iauaretê, de Guimarães Rosa.

Mas o que leva esses artistas a construírem uma dramaturgia a partir de um texto literário? Para quem não é artista, a resposta imediata e mais óbvia é que com a literatura buscam-se temas não abordados por uma peça teatral. Mas essa resposta é um pouco mais complexa para quem lida com o fazer teatral. Talvez o enigma se esconda no processo de criação desse artista.

É esse termo caríssimo que dá embasamento teórico, subtexto e liberdade para que se crie algo absolutamente sem nenhuma referência de rubrica ou indicações de "aqui a luz se apaga", comum em textos teatrais mais conservadores. Claro que Shakespeare é genial e praticamente não existem rubricas em suas peças; claro, também, que a insuperável encenação de O Balcão, de Jean Genet, trazia imagens suficientes para o delírio destruidor do encenador franco-argentino Victor García, que literalmente destruiu um teatro. Mas saindo da obviedade dos Hamlets, Caixeiros-Viajantes e Alaides, a verdade é que entre os grandes personagens da literatura e os grandes personagens da dramaturgia ganham os primeiros, para alegria do "processo de criação" de atores e encenadores!

Totem cultural. Não é coincidência o relançamento de edições da literatura russa no Brasil (traduzidos diretamente do original e não mais de edições francesas) e recentes peças baseadas na obra de Fiodor Dostoievski, verdadeiro totem cultural. Artistas de insuspeitado talento têm procurado na obra do bardo russo motivações para questionamentos da ordem moral, espiritual e, por que não dizer, mundana da vida. Nos últimos dois anos, os teatros de São Paulo puderam conferir elogiadas encenações adaptadas de Memórias do Subsolo (monólogo com Mika Lins, numa interpretação que ia se desfigurando como em um quadro de Francis Bacon), O Grande Inquisidor (parte da narrativa do petardo Os Irmãos Karamazov) e Sonho de Um Homem Ridículo (ambas interpretadas pelo sempre denso Celso Frateschi).

Difícil mesmo será superar a ambiciosa encenação de O Idiota, realizada na sua íntegra no final do ano passado, e que volta no dia 17 ao SESC Pompeia, pela Mundana Companhia, um coletivo de artistas egressos de importantes grupos teatrais paulistanos como a Cia. Livre, o Teatro da Vertigem e o Teatro Oficina.

Como uma ópera wagneriana, a brilhante encenação de Cibele Forjaz traduz o leitmotiv novelesco de Dostoievski numa verdadeira obra de arte total, e para não perder o sotaque nacional: antropofagicamente carnavalizada. Para o sucesso desta empreitada foi muito importante a Companhia ter aceitado o conselho de Boris Schnaiderman, decano da divulgação da cultura russa no Brasil: "Ele nos aconselhou a não sermos turistas nem tampouco fiéis ao romance", relata Luah Guimarães (que também assina a dramaturgia, com a diretora e Vadim Nikitin), num esclarecedor texto no programa da peça em que descreve parte do diário de montagem e o árduo processo de criação.

Como em um "sonho de um homem ridículo" foi Aury Porto (idealizador, autor do roteiro adaptado e Príncipe Michkin, "o idiota") quem enxergou teatro naquelas mais de 600 páginas de resignação e dor. Seu príncipe não é "muito louro" como na descrição das primeiras páginas, tampouco calça "uns sapatos de sola grossa com polainas, tudo de feitio russo"; mesmo com cabelos pretos, descalços e um brasileiríssimo sotaque cearense, não há duvidas de que se está diante do ideal imaginado pelo autor, segundo citação de cartas: "Um homem positivamente belo, uma mistura de Cristo com D. Quixote".

O que se vê em cena é de tirar o fôlego: são nove atores num tour de force de 6h30 de construção/desconstrução e inventividade sob o poder dos quatro elementos da natureza, um hercúleo trabalho de produção e técnica teatral. É o olho do espectador (somente 80 pessoas por espetáculo) que vai editando a peça, dependendo do lugar em que ele se senta a cada deslocamento. A proximidade ou distância da ação oferece uma composição de cena diferente a cada um. Dependendo da disposição (física e espiritual), talvez a única coisa que todos levarão para casa será a certeza de que "o segredo da existência não consiste somente em viver, mas em saber para que se vive". Se for assim, a literatura e o teatro já cumpriram a sua função.

CAETANO VILELA, ENCENADOR E ILUMINADOR, ATUALMENTE DIRIGE A CIA. DE ÓPERA SECA NO BRASIL

QUEM É

FIODOR DOSTOIEVSKI

Nascido em Moscou, em 1821, e morto em São Petersburgo, em 1881, o escritor é um dos fundadores do realismo em seu país. Autor de clássicos como Crime e Castigo e Os Irmãos Karamazov, foi preso em 1849 por participar de reuniões na casa de um revolucionário na Rússia czarista.

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