Casal no ringue: seria cômico se não fosse sério

Dürrenmatt recria de forma ainda mais ácida nesta peça a guerra conjugal retratada em outro texto por Strindberg

Beth Néspoli, O Estadao de S.Paulo

19 de março de 2010 | 00h00

Casamentos longos costumam esmorecer paixões, diluir sentimentos, afrouxar laços. Não é o que se dá na relação do casal interpretado por Ana Lucia Torre e Antonio Petrin na peça Seria Cômico se Não Fosse Sério, que estreia amanhã no Tucarena. Pelo contrário. Há 25 anos eles se mantêm unidos por um ódio cada vez mais intenso. Rancor que expressam tão sem disfarce, em diálogos de tal acidez e franqueza, que chegam a ser cômicos.

Cada palavra que dizem um ao outro é escolhida para ferir. No passado, eles apostaram no casamento como trampolim para uma ascensão social. Que nunca veio. Nem podia. Ambos eram medíocres, o que logo se deram conta, mas nem por isso se separaram. Passaram a preencher o vazio culpando um ao outro pela vida amesquinhada.

Não por acaso o suíço Friedrich Dürrenmatt (1921-1990), prefere usar a palavra rounds, em vez de cenas, no andamento desse seu texto. Algo que o diretor Alexandre Reinecke traz para a montagem. "Aquele som do gongo abre cada cena", diz. Luciano Chirolli completa o elenco no papel do primo que faz uma visita ao casal, e não difere deles. "Ele é chamado ao ringue, mas não julga, porque é um juiz sem valor algum, um escroque. Mas não insignificante. Ficou rico."

A ilha. Esse personagem ganha dimensão especial nesse texto cujo título original é Play Strindberg isso porque se trata de uma releitura de A Dança Final, peça do dramaturgo sueco August Strindberg (1849-1912). O trio de personagens é o mesmo, Edgar, o velho militar fracassado e sua mulher Alice, ex-atriz de carreira insignificante, que vivem numa ilha e estão casados há 25 anos; e Kurt (Chirolli), primo de Alice. Dürrenmatt tirou de cena os demais, encurtou o texto, mas construiu uma ponte entre o mundo e essa ilha, propiciando assim uma importante ligação entre o privado e o público, e o faz por meio de Kurt.

Na sua peça, ele mantém a acidez do duelo verbal de origem, mas seca os diálogos, torna-os curtos, ágeis, retira da peça todo psicologismo e impregna o texto de humor ferino. O título do espetáculo em português, de certa forma, acompanha esse movimento. O embate é cômico pela sua crueza quando se restringe à relação conjugal, mas o problema torna-se sério, quando se projeta e sai da dimensão privada. Gente assim constrói uma sociedade à sua imagem e semelhança, e aí os atingidos deixam de ser apenas os filhos desse trio sórdido. "É uma peça, e uma montagem, muito pertinente para os dias de hoje", diz Reinecke.

Petrin é o tradutor e um dos produtores do espetáculo. "É um texto primoroso com personagens fantásticos. É um prazer estar em cena e espero que o espectador sinta o mesmo na plateia", diz. "O autor não dá um minuto para respirar, é um embate tão cruel que beira o absurdo, daí o humor. Eles falam mesmo isso um ao outro? A gente ouve e não acredita", diz Ana Lucia. "Só rindo", completa Petrin.

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