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'Casablanca' completa 70 anos

O acaso conspirou para que o clássico romântico com Humphrey Bogart e Ingrid Bergman virasse um marco de Hollywood

Luiz Carlos Merten - O Estado de S. Paulo,

25 de novembro de 2012 | 08h22

Na entrevista que deu ao Estado, o cineasta Werner Herzog, homenageado do Festival 4 + 1, que tem uma de suas sedes no Rio (mas pode ser acompanhado online, na internet pelo endereço wwww.4mas1.com), destacou Casablanca, o clássico romântico de Michael Curtiz, de 1942, como um exemplo perfeito de storytelling. O cinema pode não ser só uma arte ou forma de contar histórias, mas convém não subestimar seu aspecto narrativo. Casablanca ganhou os principais Oscars daquele ano. Completa sete décadas, durante as quais seu fascínio se manteve intacto. Diferentes gerações de espectadores continuam cedendo ao seu mistério.

Os 70 anos de Casablanca são tema de uma programação especial no TCM. Mais uma vez, Rick e Ilsa vão se reencontrar no café dele, na cidade que, em plena 2.ª Guerra, é rota de fuga da Europa, onde o nazismo é dominante. Rick e Ilsa se amaram no passado, em Paris, e agora ela está casada com Victor Laszlo. Prepare-se para os grandes momentos do filme - mas desista de encontrar a célebre frase, "Play it Again, Sam", que Ingrid Bergman não diz para Dooley Wilson, embora lhe peça para tocar o tema musical que foi fundo para seu romance com Humphrey Bogart. Ainda há fogo sob aquelas cinzas.

Woody Allen, admirador de Casablanca e do mito de Bogart, escreveu Play it Again, Sam, que virou filme de Herbert Ross - Sonhos de Um Sedutor -, no qual ele próprio, na pele de um crítico, revive o dilema de Rick Blaine. O mocinho fica com a mulher amada ou renuncia a ela, para que seja a fortaleza de Victor e o ‘outro’, afinal, representa a resistência ao nazismo? O romantismo com grandeza faz parte da receita do filme. Casablanca foi produzido na Warner como parte do esforço de guerra em Hollywood, com base numa peça nunca encenada. A filmagem foi particularmente tumultuada. Por pouco Casablanca não virou outra coisa - e não o clássico em que se transformou.

Para início de conversa, o estúdio queria Ronald Reagan, na fase de canastrão, perdão, ator, bem antes de virar presidente dos EUA, como protagonista. Foi um longo caminho até que Bogart se instalasse no papel que domina como se tivesse sido escrito para ele. Havia também outras possibilidades de escolha para Ilsa e Ingrid, a bem da verdade, não estava muito interessada em fazer o filme. Sua preferência era por outra produção - Por Quem os Sinos Dobram?, adaptada do romance de Ernest Hemingway, que conseguiu fazer, mas o filme não resultou tão bom. Alguém consegue imaginar Casablanca sem a química da dupla? Foi o acaso que os reuniu, apenas por esta vez.

Conta a lenda que o roteiro vencedor do Oscar - de Julius e Philip Epstein e Howard Koch - era reescrito à noite para que Michael Curtiz filmasse de dia. Cineasta húngaro que foi para Hollywood fugindo das hordas de Hitler, Curtiz virou um dos esteios da Warner, fazendo filmes de todos os gêneros. A pegada expressionista serviu ao projeto, há cenas que ainda arrepiam - a Marselhesa, a abrupta arrancada do avião -, mas é o elenco que faz a diferença.

Sydney Greenstreet, Peter Lorre, Paul Henreid e Claude Rains, que tem aquele final inesquecível com Bogart. E os diálogos - Ingrid Bergman, em flash-back, nos braços de Bogart, pergunta se o que ouve são as batidas de seu coração ou os canhões dos alemães, que invadem Paris? Um filme tem de ser muito grande para que o espectador passe por cima, olimpicamente, de falas como essa, que poderiam derrapar no kitsch.

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