Casa França Brasil expõe arte dos anos 70

A Casa França Brasil inaugura nesta terça-feira a exposição Situações: Arte Brasileira - 70. A mostra reúne 80 obras de artistas que atuaram na década de 70, entre eles Cildo Meireles, Carlos Zílio, Rubens Gerchman, Artur Barrio e Carlos Vergara. A maioria das obras catalogadas é da coleção dos próprios autores, portanto desconhecida do público. O espectador que entrar no salão não verá quadros na parede, e sim objetos, livros discos e mais de cem documentos sobre a época. Exibições paralelas darão conta da vasta produção de cinema e poesia dos anos 70.A disposição dos trabalhos considera o diálogo entre as linguagens artísticas, característica dos anos 70, que estimulava a diversidade de formatos e mensagens. "É uma discussão sobre o que é a arte e como ela participa do mundo" , dizem as curadoras Glória Ferreira e Paula Terra. De fato, nos anos 70 as obras de arte chegavam ao público das formas mais inusitadas, desde uma simples carta, a mail art, até mesmo através de ações do artista, como a Corpobra, de Antônio Manuel, em que a obra era seu próprio corpo nu, exposto no Salão Nacional de Arte Moderna de 1970. As várias obras que não poderiam ser reconstituídas num salão de exposição estão registradas em fotografias e filmes, um raro acervo que estará disponível em Situações.A busca de novos meios e suportes para a expressão artística era parte de um clima de efervescência cultural, que vinha acompanhada de um certo engajamento político. Mas certamente é um exagero atribuir à arte brasileira dos anos 70 um caráter exclusivamente político. "Não era uma guerra de campo aberto", dizem as curadoras, "mas existem dois tipos de arte política: uma com mensagens ostensivamente engajadas e outra que, por ser crítica em relação a si mesma e provocar a reflexão, também é política". Essa pode ser a chave para se entender a década e o sentido de obras como Situações PH, de Artur Barrio, em que o autor desenrolou papel higiênico pelo MAM do Rio no Salão da Bússola, em 1969. Os registros em fotos e filmes tinham a intenção de captar a reação de quem via uma situação inesperada. A obra de arte não era o papel higiênico, nem as imagens de registro, mas a situação criada. Subverter as convenções e provocar o pensamento estavam na ordem do dia.Mas nem só de eventos chamativos foi feita a arte dos anos 70. Situações trará a público as tentativas de criação de circuitos alternativos de arte, por meio de revistas independentes como Malasartes e Navilouca e de exposições não-convencionais em bares, praças e butiques. Numa crítica à preferência pela arte tradicional, um afiado manifesto da época dizia que os artistas queriam expor em qualquer lugar, "até em museus e galerias".Arte e política - As marcas da geração de 70 permanecem, e sua influência ainda é discutida do ponto de vista da contestação política. Rubens Gerchman, fundador da Escola de Artes Visuais do Parque Lage em 75, compara sua década com os dias de hoje: "Queira ou não, a produção cultural tinha uma marca. Hoje, a competição dominou os artistas e o que interessa é quem está mais bem cotado no mercado". Gerchman fala em falta de ideologia na classe artística. Opinião não compartilhada por Cildo Meireles, que acha que a sociedade brasileira está mais politizada hoje do que no passado. "Não me interessa o panfletário na arte. Não existe artista político, mas algumas vezes o artista é impelido a dar uma resposta política a certos problemas, como foi com o AI-5, que chocou a sociedade em geral". Para Carlos Zílio "havia um divórcio entre artistas que eram mais ligados à pesquisa de linguagem e outros ao mercado". Mas a politização da arte, para ele, era de outra ordem. "Algumas obras tinham uma relação com o seu tempo, e outras eram puro objeto decorativo. Nossa maior atuação política foi criar espaços para a arte mais conseqüente. Fizemos a Malasartes, fomos à luta."A Malasartes, que teve só cinco números, projetou uma geração. Zílio fala com orgulho que o último número da revista Arte na América traz na capa Cildo Meireles. "Fomos os primeiros a estabelecer uma relação da arte brasileira com o mundo", comenta Zílio. Se a geração dos anos 70 de reuniu com o intuito de mesclar linguagens, está claro que também conseguiram-se firmar como grupo. E Situações: Arte Brasileira - anos 70 promete trazer as histórias e os mitos do grupo que abriu as portas da arte contemporânea para o Brasil.Casa França Brasil - Rua Visconde de Itaboraí, 78 Centro Tel: 253-5366.

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