Casa de Sérgio Buarque se torna pública

A casa onde viveram o historiador Sérgio Buarque de Holanda e sua família em São Paulo foi decretada hoje como bem de interesse público pela prefeita Marta Suplicy. A medida visa a desapropriação, que será feita em comum acordo com a família Buarque de Holanda, para a criação da Discoteca da Música Brasileira. O historiador, morto em 1982, faria 100 anos hoje. O projeto da prefeitura é levar para a casa, que fica na Rua Buri 35, Pacaembu, o acervo digitalizado da discoteca Oneyda Alvarenga, criada por Mário e Andrade em 1936 e que hoje está no Centro Cultural São Paulo. A coleção Alvarenga tem 40 mil discos em 78 rotações, 15 mil em 33 RPM, 1.500 partituras e também instrumentos musicais coletados por Mário de Andrade nas viagens de sua Missão Folclórica. Além do acervo da Missão Folclórica, a Discoteca da Música Brasileira será composta pelas coleções Marcus Pereira, Salatiel Coelho, Unesco Collection, Música Erudita do Brasil e também registros sonoros da família de Sérgio Buarque de Holanda. ?Será a maior discoteca do Brasil?, afirmou a prefeita Marta Suplicy. A previsão da secretaria municipal de cultura é de que a digitalização do acervo resulte em 28 mil CDs, que ficarão disponíveis para consulta gratuita do público em cabines de audição. O secretário Marco Aurélio Garcia não compareceu à cerimônia de assinatura do decreto hoje por estar fora do Brasil. Seu assessor José Jacinto do Amaral, no entanto, disse que a digitalização dos acervos ainda depende de parcerias com a iniciativa privada. Segundo Jacinto, a desapropriação leva em média 60 dias, e a licitação para contratar uma empresa de restauro para o imóvel deve consumir mais dois meses. ?Se tudo correr bem, as obras começam em novembro?, disse. O orçamento total do projeto é de R$ 2,2 milhões.Construída em 1929 e habitada pelos Buarque de Holanda entre 1957 e 1982, a casa foi posta à venda mais de uma vez nestes últimos 20 anos, mas não teve comprador. O imóvel mantém preservadas suas características arquitetônicas originais. São cerca de 400 metros quadrados distribuídos em dois andares e um jardim.A idéia de transformar a casa de Sérgio Buarque de Holanda em alguma espécie de centro cultural existe desde o fim da década de 80. ?Estamos discutindo desde o início deste ano formas de usar a casa?, diz Ana de Hollanda, filha de Sérgio Buarque. Ela explicou que tanto a biblioteca como os arquivos pessoais de seu pai são hoje da Unicamp. Por isso, surgiu a proposta de transformar a casa em um centro de referência de música brasileira. Ana, sua irmã Maria do Carmo e seu irmão Sérgio Buarque de Holanda Filho participaram hoje da cerimônia, que chegou a ter bolo de aniversário com velas de número 100 e parabéns a você para Sérgio Buarque. Para Ana, a criação de um centro de referência sobre música na casa em que sua família viveu seria algo muito ao gosto de seu pai. ?Sempre rolava música lá em casa?, conta Ana. Ela cita baluartes da MPB para ilustrar a ótima freqüência de sua casa no passado: Vinícius de Moraes, Baden Powell, Nelson Cavaquinho, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Gilberto Gil e vários outros. Ana, suas irmãs Miúcha (Heloísa Maria), Cristina Buarque e o irmão Chico eram a contrapartida musical doméstica a tantos visitantes ilustres. ?Nossa casa era uma passagem obrigatória para quem viesse a São Paulo?, afirma.Entre muitas outras lembranças curiosas da casa, Ana disse que Chico Buarque compunha na sala de jantar, trancado, com medo de que seus familiares o ouvissem. ?Ele achava que ninguém ouvia mas escutávamos tudo?, contou. Chico viveu na casa até 1966, quando voltou para o Rio de Janeiro, sua cidade natal. Agora, com a Discoteca da Música Brasileira à vista, Ana de Hollanda vê um destino digno para a casa onde a cultura brasileira fervilhou: ?esse será um lugar para ouvir e pesquisar, um ponto de encontro sobre música?.

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