Casa de Francisca terá tributo para arrecadar dinheiro

Evento no Teatro Oficina vai reunir 54 artistas neste domingo e reverter a renda para reforma da Casa, palco da música independente contemporânea de São Paulo

Lauro Lisboa Garcia, especial para O Estado de S.Paulo

10 de março de 2012 | 03h08

Uma significativa ocupação do Teatro Oficina amanhã, a partir das 17 horas, vai ser com um panorama da melhor música independente contemporânea de São Paulo. A duração do evento tem a proporção de uma peça de Zé Celso. Serão mais de 4 horas de shows, em blocos de artistas que tenham afinidade uns com os outros, com eventuais intervalos, bar com bebida e comidinhas no terceiro andar. Enfim, para chegar lá e se desligar do mundo. O elenco de talentos é numeroso e representativo e o motivo é dos mais dignos: dar um gás para a Casa de Francisca, que abrigou toda essa gente durante os últimos anos e passa por reformas. Daí a brincadeira no nome do evento: El Grande Conserto (com s mesmo).

"Vai ser uma celebração, mas a ideia é que se curta a música", diz Rubens Amatto, um dos sócios da Casa. "Não estamos anunciando o roteiro nem a ordem das apresentações justamente para que o público que vá pra ver Criolo, por exemplo, também conheça Cida Moreira ou Marcelo Pretto. O que a gente quer é o contrário da segmentação, deixar a coisa múltipla, como é o trabalho de Kiko Dinucci, que bem representa essa variação toda. A gente se identifica muito com essa riqueza de possibilidades. É isso que nos motiva a fazer curadoria da Casa."

Todos os 54 artistas reunidos no Conserto abriram mão dos cachês e a renda desse show vai ajudar a pagar a reforma. "É uma obra importante para deixar a casa mais viável em termos de funcionamento. O palco vai ficar um pouco maior com a mudança da escada, por exemplo. O corredor da arquibancada ficou mais largo", diz Amatto. A previsão de reabertura é para abril.

Espaço aconchegante, charmoso e bem frequentado, a Casa (situada na Rua José Maria Lisboa, 190) tem plateia com apenas 44 lugares, mas já recebeu mais de 10 mil pessoas em quatro anos de funcionamento. Zé Miguel Wisnik costuma dizer que a casa "tem uma intimidade quase indecente". Para o violonista Chico Saraiva, é o ambiente ideal para tocar. "Há uma identificação com o tipo de música que cultivo. O violão precisa dessa intimidade. É aí que ele vai revelar os detalhes", diz Saraiva.

"Acho que tanto para o artista que se apresenta lá, muito mais com intenções humanas do que comerciais, como para o próprio público o grande barato é a relação de respeito pelo que está sendo mostrado. Então, tem uma reverência ao silêncio, tem todo um ritual para se preparar para ouvir música. Isso, por incrível que pareça, é raro nas casas de shows. E também fazem falta espaços pequenos. Hoje é quase tudo mega em São Paulo", observa Amatto.

A casa ganhou credibilidade pela programação, sempre aberta a novidades e experimentações, como Metá Metá e Passo Torto, além de agregar mestres e eternos provocadores, como Jorge Mautner, Arrigo Barnabé, Cida Moreira e Paulo Vanzolini.

Arrigo criou o sensacional show Caixa de Ódio, dedicado ao cancioneiro de Lupicínio Rodrigues para fazer na Casa de Francisca. "É um espaço muito legal, um laboratório onde você pode experimentar coisas. A casa tem um pensamento muito cultural, não é voltada para ganhar dinheiro. Esse trabalho deixa uma marca na vida cultural da cidade. Todo mundo gosta de tocar lá."

Destaques

ARRIGO BARNABÉ

O compositor idealizou o show Caixa de Ódio, interpretando Lupicínio Rodrigues, para o espaço da Casa de Francisca, onde gravou o DVD bancado pelos próprios donos com apoio do Canal Brasil. Fez longas temporadas por mais de dois anos ali.

KIKO DINUCCI

Violonista dos mais requisitados da nova geração, o músico teve várias passagens pela casa, onde realizou projetos como Metá Metá, ao lado de Juçara Marçal e Thiago França, e Passo Torto, com Rodrigo Campos, Marcelo Cabral e Romulo Fróes. Os dois grupos nasceram ali.

CRIOLO

Antes de se projetar como a grande novidade desse início de década, o rapper, compositor e cantor paulistano, mostrou ali canções que iria gravar no incensado álbum Nó na Orelha.

CIDA MOREIRA

O ambiente intimista é mais do que adequado para a cantora e compositora, que fez shows cantando Tom Waits e outros autores contundentes no show que virou DVD A Dama Indigna.

CHICO SARAIVA

Frequentador da Casa, o violonista conheceu ali a cantora portuguesa Susana Travassos, com quem gravou um CD previsto para sair este ano.

ALZIRA E

A cantora e compositora levou novidades e homenageou Maysa no espaço.

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