Acervo pessoal
Acervo pessoal

Casa de Ernesto Sábato, em Buenos Aires, será museu

Casarão, localizado na Grande Buenos Aires, também abrigou Jorge Amado durante seu exílio, entre 1941 e 1942

Ariel Palacios, Correspondente - O Estado de S.Paulo

09 de abril de 2014 | 02h11

BUENOS AIRES - O casarão onde uma das principais figuras da literatura latino-americana, o argentino Ernesto Sábato, escreveu todos seus livros, desde Sobre Heróis e Tumbas a Abadon, o Exterminador, será aberta ao público a partir de meados deste ano. "Não será um museu, palavra que me faz lembrar 'mausoléu'. Se for o caso, que seja um 'museu vivo', sem solenidade. Isto é, que tenha a alegria que tinha quando meus pais estavam vivos', explica a um grupo de correspondentes estrangeiros, entre eles o Estado, o cineasta Mario Sábato, o único filho vivo do escritor, que morreu aos 99 anos em 2011.

Localizada na rua Severino Langeri 3155 (via pública que, graças à peculiar burocracia argentina, homenageia uma pessoa que nunca existiu), o casarão do bairro de Santos Lugares, no município de Tres de Febrero, na zona noroeste da Grande Buenos Aires, conta com os 7 mil livros da biblioteca do escritor. Cada exemplar está na mesma ordem em que ele os deixou. A poucos metros dali, os visitantes poderão ver o escritório do autor. Sobre uma escrivaninha, repousa sua máquina de escrever Olivetti elétrica e seus grossos óculos.

A família do escritor Ernesto Sábato atarefa-se na preparação do museu-casa, onde o escritor viveu desde 1945 até morre em 30 de abril de 2011. "Meu pai queria uma casa aberta à comunidade após sua morte", explica seu filho. "Conseguimos um subsídio estatal. Mas, neste caso, a residência de Sábato mais parecia a casa de Kafka, até que o dinheiro para a restauração da casa foi liberado, a inflação já havia devorado a maior parte dos fundos. Tivemos que buscar apoio de fundações e do próprio povo para concluir as obras", sustenta.

Em cada cômodo, os admiradores poderão ver em telas a imagem do escritor falando sobre cada uma das partes do casarão, graças a um filme que seu filho cineasta fez décadas atrás.

O casarão estava em péssimo estado de manutenção na época da morte do escritor, já que Sábato havia mergulhado na tristeza após a morte de seu filho Jorge em 1995 e de sua mulher, Matilde Kusminsky-Richter, em 1998. "É um projeto terapêutico para a família, pois voltará ser um lugar de alegria", explica Mario Sábato.

"A casa é mágica", continua ele. "Quem a construiu foi o produtor de cinema Fernando Valle, em 1927. O ambiente onde hoje está a biblioteca principal era o estúdio. Daí os grandes janelões. Quando nos mudamos, em 1945, Valle continuou morando aqui, no porão. E, quando tínhamos visitas, ele abria o alçapão e - para surpresa dos hóspedes - dizia: 'telefone, sr. Sábato', esticando-lhe o aparelho. Meu pai fazia de conta que atendia, devolvia o fone, agradecia e Valle sumia no porão. E meu pai continuava conversando como se nada tivesse acontecido."

Sábato conta que, antes de sua família, a casa teve um hóspede ilustre para as letras latino-americanas: o brasileiro Jorge Amado, que se exilou entre 1941 e 1942 na Argentina e no Uruguai, fugindo da perseguição da ditadura de Getúlio Vargas. Durante sua permanência na Argentina, publicou Vida de Luis Carlos Prestes, o Cavaleiro da Esperança e colaborou com jornais portenhos.

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